Contenção consciente do consumo de água
24/04/2008

Artigo de FERNANDO FIGUEIREDO - Vice-presidente da BASF e Coordenador de Comunicação da Abiquim

O ano de 2008 começou sob o impacto positivo de um forte crescimento econômico que pode ser esperado não apenas para este período como para os anos seguintes.

Contudo, sobre esta animadora expectativa pairam as nuvens de um possível risco de apagão no setor elétrico. As análises do tema pela imprensa têm deixado para um plano secundário o principal motivo desta crise: a falta de água que já afeta diversas regiões do País.

Segundo números da Organização das Nações Unidas (ONU), cada pessoa necessita de 3,3 metros cúbicos por mês, ou cerca de 110 litros de água por dia, para atender necessidades de consumo e higiene. No entanto, no Brasil, o consumo por pessoa geralmente supera esse número e não raro se aproxima de 200 litros/dia, um evidente desperdício. O gasto desnecessário desse recurso natural é algo inaceitável e deve ser objeto de preocupações do governo, da iniciativa privada e dos cidadãos. Vários fatores têm contribuído para o aumento da ameaça de falta de água no Brasil, entre os quais a falta de investimentos e dificuldades burocráticas.
Hoje a questão é alvo de preocupação em todo o planeta, a ponto de a Secretaria Geral da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) oferecer uma proposta polêmica aos governos: elevar o preço da água para ajudar a combater a crescente escassez.

No Brasil predomina a crença equivocada de que, por sermos um país tropical de muitas florestas, grandes rios e boa quantidade de chuva, a água seria um recurso inesgotável. Embora o País disponha de 16% dos recursos hídricos mundiais, períodos de estiagem já nos levaram a períodos de escassez ou falta desse recurso nos grandes centros urbanos.

Estudos indicam que, de cada 260 litros de água tratada por habitante/dia, apenas 160 litros chegam aos consumidores. Estes geram consumo desnecessário adicional, resultando em um desperdício que alguns estimam chegar a 70%. E o custo de captação, tratamento e distribuição é elevado, estimado entre US$ 5 a US$ 10 por metro cúbico. A mudança rumo a um consumo consciente exige uma ação organizada da sociedade como um todo e diferentes iniciativas: medidas para reutilização das águas usadas; melhor tratamento de esgoto; novas técnicas de irrigação da agricultura; manutenção da rede de distribuição e investimentos em projetos de dessalinização. E como nem todos os usos da água exigem que ela seja tratada (lavagem de veículos; combate ao fogo; atividades de construção, por exemplo) por que não estimular a captação e o uso de água da chuva?

A indústria química utiliza água em diversos processos produtivos e a gestão eficiente desse recurso tem produzido resultados notáveis. A implementação do Programa Atuação Responsável da indústria química no Brasil contribui tanto para a sustentabilidade do planeta como para a melhoria do resultado das empresas. No período de cinco anos, o consumo foi reduzido em 32% e as empresas puderam diminuir seus custos em cerca de 15%. No mesmo período, as empresas associadas da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) reduziram também em 34,4% o lançamento de efluentes, diminuindo assim os custos de tratamento da água e o impacto de suas operações no meio ambiente. Outra iniciativa de mérito é o recente protocolo de intenções assinado entre as empresas do Pólo Petroquímico de Capuava, na região metropolitana de São Paulo, e a Sabesp para reutilização da água, capaz de reduzir de R$ 9,00 para R$ 1,00 o custo do metro cúbico destinado ao abastecimento de água das empresas participantes.

Na esfera pública também existem boas iniciativas, pois em muitas cidades a água de reúso já é utilizada para a limpeza pública. Mas o consumo consciente tem no cidadão um elo decisivo no esforço de redução do consumo.

O filme Waterworld, de 1995, estrelado por Kevin Costner, faz um exercício acerca do que poderia ser a Terra em um contexto de escassez de água potável: esta se transforma numa mercadoria rara, cara e disputada ferozmente como um ativo estratégico. Hollywood à parte, o fato é que a ninguém interessa que se chegue a uma situação de descontrole.

O assunto é tão importante que o Congresso Nacional deveria tomar a frente nesta discussão e estabelecer um debate destinado a construir uma filosofia de consumo consciente de água em nosso país.

(Fonte: Gazeta Mercantil)