Petróleo em alta eleva preços em 2008
03/01/2008

Algumas dezenas de centavos de dólar separaram o barril de petróleo de sua cotação histórica de US$ 100 em 2007. E, apesar da marca ainda não ter virado realidade, o fato é que a subida de preços registrada no ano passado promete dominar a pauta já no início de 2008, contaminando inclusive alguns setores da economia por aqui.

"Os nossos produtos no Brasil vão sofrer um reajuste de pelo menos 3% em janeiro deste ano", afirma Endre Kallay, gerente-geral da sueca Nynas no Brasil, produtora de lubrificantes industriais, óleos naftênicos, entre outros, ao Valor. E Kallay não está sozinho na hora do repasse de preços. Segundo José Ricardo Roriz Coelho, presidente do Sindicato da Indústria de Resinas Plásticas (Siresp), os fabricantes desse insumo, usado, por exemplo, na produção de sacolas plásticas e peças automotivas, vão reajustar seus preços entre 4% e 6% já no começo deste ano.

De acordo com Roriz Coelho, esse reajuste vai complementar um repasse de 5% que a indústria já promoveu em meados do ano passado. "Nossa intenção era ter aumentado os preços em 11% no meio de 2007, mas como houve uma forte queda na cotação do dólar à época, nós postergarmos essa diferença", diz o executivo.


Apesar do enfraquecimento do dólar no Brasil, que acumulou uma desvalorização próxima de 17% no ano passado, tanto os fabricantes de resinas como a Nynas sabem que o verdadeiro combustível de seus negócios ainda é o petróleo e seus derivados diretos, como a nafta petroquímica. E é por este motivo que o setor tem acompanhado cada vez mais as oscilações de valores dessa commodity.

O gerente-geral da Nynas, que no mundo fatura algo como US$ 1,5 bilhão e é controlada pela estatal venezuelana do petróleo PDVSA e pela finlandesa Neste, admite que a calculadora foi sua parceira no ano passado. Segundo o executivo, como a companhia seguiu o sobe e desce do barril no mercado internacional, o repasse de preços foi praticamente imediato por aqui. "No decorrer de 2007, os nossos preços foram reajustados em cerca de 25%. E não há outro jeito, porque nossa matéria-prima é 100% petróleo", afirma.

Foi essa política de ajustes implementada em 2007 que também resultou em uma certa redução no volume vendido pela Nynas no Brasil no ano passado. De acordo com Kallay, essa queda só ocorreu porque seus concorrentes diretos não praticaram a mesma política de reajuste de preços.

Dados da Nynas no país mostram que em 2007 a empresa faturou R$ 104 milhões, mas comercializou 32,5 mil toneladas de produtos. Já em 2006, a história foi bem diferente. A companhia registrou vendas que somaram R$ 73 milhões, mas negociou aproximadamente 38 mil toneladas de óleos, lubrificantes, entre outros insumos.

Kallay conta também que para garantir o fluxo de caixa da companhia, a empresa incrementou seu capital de giro em US$ 300 milhões mundo afora em 2007. "A conta foi simples. Para a Nynas comprar mais petróleo, ela precisou gastar mais. Por isso, aumentamos o nosso fluxo de caixa", acrescenta o executivo.

A julgar pelas próprias projeções da Nynas, as vendas em volume não deverão apresentar grande salto em 2008. Isso, porque o executivo calcula que o preço do petróleo no mundo manterá o viés de alta nos primeiros meses deste ano, alcançando inclusive os US$ 100.

Mas neste aspecto, pelo menos, não há opinião única entre os diferentes agentes de mercado. Para o presidente do Siresp, o preço do barril de petróleo deverá sofrer alguma queda nos próximos meses.

Roriz Coelho se baseia na combinação entre alguns fatores para acreditar que o viés será de baixa em 2008. "A recessão nos Estados Unidos deverá deixar receosos os agentes que trabalham com estoque de petróleo. E quem pretendia montar suas reservas, já o fez", acredita o executivo.

O preço do barril da commodity praticado na Bolsa Mercantil de Nova York, o tipo WTI, e na Bolsa Internacional do Petróleo de Londres, o tipo Brent, apresentou uma forte valorização ao longo de 2007. O valor médio, por exemplo, da commodity WTI saiu de US$ 62,09 em dezembro de 2006 para US$ 91,74 em dezembro passado.

No produto Brent, a escalada também foi parecida. Em dezembro de 2006, o petróleo foi negociado a US$ 62,29 como valor médio, enquanto que no último mês do ano passado alcançou a cotação média de US$ 91,44.

Só que o impacto dessa forte valorização não se restringiu apenas ao repasse de preços por toda a cadeia. Foi além. Mexeu com os custos das multinacionais que passaram a extrair o óleo em campos antes inviáveis economicamente, impulsionando também o aluguel diário das sondas. Neste caso, os preços saltaram de US$ 150 mil no início dos anos 2000 para os US$ 450 mil cobrados atualmente. (Fonte: Valor Econômico)