Oferta limitada de insumos desafia a Braskem e a CPS
10/12/2007

A petroquímica brasileira vai enfrentar um cenário de escassez de matérias-primas e o atendimento futuro dependerá da diversificação de suas fontes de suprimento, segundo um estudo recém-saído do forno da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim). Este cenário, aponta o trabalho, é agravado pelo aumento dos preços do petróleo e seus derivados, como a nafta, e as incertezas relacionadas à oferta de gás natural. Em paralelo, surgem no Oriente Médio grandes projetos petroquímicos altamente competitivos, que devem afetar o fluxo comercial dos produtos .

A oferta de matérias-primas petroquímicas até 2020 coloca um desafio no instante em que foram definidas as estruturas societárias das duas grandes empresas brasileiras do setor - a Braskem e a Companhia Petroquímica do Sudeste (CPS). A Petrobras, principal fornecedora de matérias-primas do país, será sócia de ambas. "Mas essa definição organiza o setor e ajuda a facilitar o planejamento e a decisão de investimento em busca das fontes de matérias-primas", diz o vice-presidente do conselho diretor da Abiquim, José de Freitas Mascarenhas.

O estudo, obtido pelo Valor, mostra que a oferta das principais matérias-primas está garantida até meados da próxima década. Levando em consideração os projetos em expansão e aqueles que devem sair do papel (atual expansão da Petroquímica União (PQU), da ampliação da Braskem, além do Comperj, o complexo petroquímico previsto para ser implementado no Rio de Janeiro), começará a faltar eteno a partir de 2015 e propeno, a partir de 2016. Em 2020, os déficits de eteno poderão chegar a 1,9 milhão de toneladas e o de propeno, 1,5 milhão de toneladas. Esses insumos são usados para a produção das resinas, transformadas em produtos, como pára-choques, fraldas e embalagens.

O estudo não contempla a recente descoberta pela Petrobras da reserva de Tupi. Mas hoje a produção de nafta petroquímica é insuficiente para atender as empresas, representando cerca de 65% das necessidades, sendo o restante importado. E o aumento da oferta deste insumo depende da expansão da capacidade de refino. O Comperj deve reduzir esse déficit, mas a indicação é que a demanda supere a oferta em 2,2 milhões de toneladas em 2020.

No caso do gás natural, diante das reservas provadas, o trabalho da Abiquim destaca que elas são muito modestas, exigindo a produção local por questões técnicas deste tipo de empreendimento. "No Brasil, a oferta de gás para a indústria é limitada porque faltou planejamento. Ela serve de suporte para a produção de energia elétrica", diz Mascarenhas. Mas ele pondera que a indústria química possui condições de agregar mais valor utilizando esse insumo. Quanto ao uso de gás de refinaria, usado para a expansão atual da Petroquímica União, existe também limitações. "É um ótimo material, mas não há gás suficiente e existe dificuldades logísticas para abastecer um complexo químico", diz Otto Perrone, coordenador do estudo.

Outra alternativa é o uso de biomassa, como já foi feito no passado. O estudo revela que nas condições de custos atuais o cenário não mudou, mas as empresas poderão aproveitar o "significativo" potencial de redução de custo na produção agrícola. "Isso cria uma expectativa favorável à biomassa", afirma o estudo. A produção brasileira de produtos químicos de uso industrial representa 3,1% do PIB. As 1,2 mil empresas empregam cerca de 300 mil pessoas. Em 2006, a indústria faturou US$ 45 bilhões. (Fonte: Valor Econômico)