Exportação de petróleo e álcool já é maior que a de automóveis
20/07/2007

A participação de petróleo e álcool, incluindo o refino, nas exportações brasileiras saltou de 2,3% em 1996 para 10,6% no ano passado. O setor ultrapassou os automóveis, que representaram 10,4% da receita obtida pelo país no exterior em 2006, e passou a ocupar o terceiro lugar no ranking da exportação, perdendo apenas para alimentos e bebidas (16,6%) e metalurgia (11,4%).

Em 1996, apenas 5% do petróleo e do álcool produzidos no país eram exportados. Em 2006, esse percentual chegou a 27%. A alta das vendas para o exterior não é resultado de queda no consumo interno, mas do crescimento da produção nacional. A fatia de petróleo e álcool na produção industrial brasileira aumentou de 6,4% para 9,9% no período.

"O setor de petróleo e álcool é a maior novidade na estrutura industrial do país em dez anos", diz Fernando Puga, assessor da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), autor do estudo "Petróleo e álcool mudam a pauta exportadora brasileira", que será publicado hoje no boletim "Visão do Desenvolvimento". A análise é baseada em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) e da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).

Para Puga, essa pujança é resultado não apenas da escalada do preço do petróleo, mas também dos investimentos da Petrobras, que permitiram aumentar a produção. A percepção do economista é, que, por enquanto, o petróleo é o principal responsável por essa mudança. "O boom do álcool ainda está por vir", diz.

Graças ao desempenho de petróleo e álcool, a pauta de exportação brasileira ficou mais concentrada em setores intensivos em recurso naturais. A participação dessa categoria de produtos nas vendas externas aumentou de 37,1% para 41,5% entre 1996 e 2006. Esses itens também ganharam importância na produção industrial, avançando de 35,7% para 38% do total no período.

A fatia dos produtos intensivos em recursos naturais nas exportações brasileiras recuaria de 35% em 1996 para 30% em 2006, caso petróleo e álcool fossem excluídos da conta. Fazem parte dessa categoria extração mineral, alimentos e bebidas, madeira, papel e celulose, além e minerais não metálicos. Apesar do resultado, Puga refuta a tese de que o aumento da exportação de petróleo esteja provocando a valorização do câmbio. Ele lembra que o Brasil ainda é deficitário na balança de petróleo, porque importa bastante. O país produz petróleo pesado, mas é obrigado a importar óleo leve por falta de capacidade de refino.

Enquanto o petróleo e o álcool ganhavam espaço na economia brasileira, os setores intensivos em trabalho encolhiam. Em 1996, têxteis, vestuário, couro, calçados, móveis e produtos de metal representavam mais do que o triplo das exportações brasileiras de petróleo e álcool. Em 2006, esses setores reunidos não atingiram 60% das vendas de petróleo e álcool ao exterior.

A participação dos bens intensivos em trabalho nas vendas externas do país encolheu de 9,9% em 1996 para 6,2% no ano passado. Essa categoria de produtos também perdeu espaço na produção industrial, recuando de 13,9% para 9,8% do total no período. Os fabricantes de tecidos assistiram sua contribuição ceder de 2,1% para 1,2% nas exportações e de 3,5% para 2,1% na produção da indústria. No setor de couro e calçados, a participação nas exportações caiu de 4,9% para 2,9%, e, na produção industrial, de 2,3% para 1,7%.

Puga acredita que as perdas desses setores são provocadas pela concorrência asiática, principalmente nos mercados externos. O setor de calçados, por exemplo, perdeu competitividade lá fora. Em 1996, os calçadistas exportavam 38% de sua produção. Esse percentual caiu para 33% em 2006. "A valorização do câmbio é um agravante", diagnostica o economista do BNDES.

No total, a indústria da transformação exportou 25% de sua produção ao exterior em 2006, mesmo percentual de 2005, mas superior aos 13% de 1996.

O estudo conclui que o Brasil enfrentará dois importantes desafios no curto prazo. O primeiro deles é definir políticas para compensar as perdas econômicas e sociais provocadas pela menor participação dos setores intensivos em trabalho na economia. "O BNDES está atento a isso com linhas de crédito", diz Puga, lembrando o pacote anunciado pelo governo de incentivo aos órfãos do câmbio.

A outra tarefa do país é potencializar o efeito do desenvolvimento do setor de petróleo e álcool na economia. Na avaliação de Puga, o crescimento dessa indústria pode ser utilizado para incentivar setores com tecnologia diferenciada e baseados em ciência. Ele cita, por exemplo, a fabricação de máquinas e equipamentos voltados para a indústria de petróleo.