Ímpeto redobrado para atender à futura demanda
13/07/2007

Como a procura por produtos do setor costuma crescer a um ritmo duas a três vezes superior ao do PIB, as perspectivas de expansão da economia brasileira nos próximos anos leva as empresas do estado a investir na ampliação da capacidade

As grandes empresas do setor petroquímico instaladas no Rio de Janeiro tocam ou planejam investimentos para ampliar a capacidade produtiva. Com isso, nada mais fazem do que se prevenir para atender ao aumento das exportações e do consumo doméstico, diante das perspectivas de crescimento de 4,5% para a economia brasileira em 2007 - e talvez mais que isso nos próximos anos. Afinal, a demanda por polietileno, polipropileno e outras resinas termoplásticas fabricadas por essas empresas - matérias-primas para brinquedos, embalagens e utensílios domésticos - costuma expandir-se duas a três vezes mais que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIE) nacional.

Os principais planos de expansão são os da Riopol (Rio Polímeros), maior investimento privado realizado no estado nos últimos anos - cerca de US$ 1,1 bilhão - e produtora de polietileno; da Petroflex, maior fabricante de borracha sintética da América Latina, com 75% do mercado brasileiro, e quinta colocada no ranking mundial; da Suzano Petroquímica, líder do mercado latino-americano no segmento de polipropileno. Como participante em duas das três empresas (Riopol e Petroflex), a Unipar tem investimentos já confirmados de R$ 1,2 bilhão até 2008 para consolidar seus ativos na Região Sudeste, sem descuidar de outras oportunidades no restante do mercado nacional.

As três empresas possuem unidades produtivas na Baixada Fluminense, nas proximidades da Refinaria Duque de Caxias (Reduc), da Petrobras, a principal fornecedora de insumos para a indústria petroquímica. A Suzano - que apesar de ter sua sede em São Paulo mantém a maior parte de seus ativos no estado fluminense - conta, além de uma fábrica de polipropileno em Duque de Caxias, também com participações acionárias na Petroflex e na Rio Polímeros. Para a empresa, o estado do Rio é estratégico. "Isso ocorre não só pela proximidade de grandes mercados consumidores, como também pelas possibilidades de expansões futuras, já que há perspectiva de disponibilidade de matérias-primas", observa o co-presidente da empresa, José Ricardo Roriz Coelho. Tanto que a empresa está investindo aproximadamente US$ 50 milhões para ampliar, de 200 mil para 300 mil toneladas, a capacidade produtiva de polipropileno na unidade da Baixada Fluminense.

A expansão deverá ser concluída em dezembro de 2007. Mas antes desse prazo, em setembro, a Suzano inaugura um outro investimento na região, avaliado em cerca de US$ 18 milhões.

Trata-se do terminal marítimo de matérias-primas, na Ilha Redonda, perto da Reduc, destinado a agilizar o recebimento de insumos. "Esse terminal vai suportar nossa expansão de capacidade de produção da fábrica", explica Roriz Coelho. Ele também diz que a Suzano vem mantendo conversas com a Petrobras e tem interesse em participar do Complexo Petroquímico do

Rio de janeiro (Comperj), que a estatal está criando em parceria com o grupo Ultra, em Itaboraí, para produzir petroquímicos primários a partir de óleo pesado, retirado da Bacia de Campos. E a Suzano poderia se juntar ao projeto participando da segunda geração, ou seja, a utilização dos petroquímicos básicos para a fabricação de resinas.

Roriz destaca o fator decisivo que leva o Rio a abrigar uma indústria como a petroquímica, de capital intensivo, produtora de commodities e cada vez mais globalizada: a proximidade dos insumos vendidos pela Petrobras. Casos do gás natural, que vem da Bacia de Campos e alimenta a Rio Polímeros, e o propeno, matéria-prima para a fabricação de polipropileno, também fornecido pela estatal, por meio da Reduc. O executivo lembra que essas facilidades podem estimular a cadeia produtiva do plástico como um todo no estado.

E explica: a presença da Rio Polímeros tem potencial para atrair, como já está atraindo, usuários de resinas - os transformadores de plástico - para se instalarem na região. Além disso, há o programa PlastRio, que oferece, por intermédio da Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de janeiro (Codin), incentivos fiscais para empresas do setor plástico que se estabelecem na Baixada Fluminense. já são mais de 20 transformadores em processo de instalação. Até 2009 a expectativa é de que 40 estejam em operação. Dados do Sindicato da Indústria de Material Plástico do Estado do Rio de janeiro (Simperj) mostram que o faturamento do setor, de cerca de US$ 350 milhões por ano, pode chegai a US$ 2 bilhões em 2009.

Mas Roriz Coelho teme que a infra-estrutura deficiente, assim como a questão da violência urbana, possa desestimular a instalação de empresas na área. Ele acha que a infra-estrutura do Rio é pior que a de São Paulo, mas melhor que a de outros estados. Para tentar sanear parte dos problemas de infra-estrutura, várias empresas instaladas nas proximidades da Reduc - casos da Suzano, Petroflex e Rio Polímeros - estão apoiando o projeto de construção do Arco Rodoviário de Campos Elíseos, em Duque de Caxias. A estrada vai facilitar o escoamento da produção em direção ao Porto de Sepetiba, ajudando no desgargalamento logístico que, se hoje não é considerado dramático, pode vir a ser no futuro, segundo Roriz Coelho. As obras, avaliadas em cerca de R$ 700 milhões, devem começar ainda em 2007.

A Suzano hoje tem uma capacidade total para produzir 685 mil toneladas ao ano de polipropileno e, além dos investimentos no Rio, está expandindo sua produção em São Paulo. Cerca de 20% da produção é exportada e o principal mercado é a América do Sul, que leva entre 40% e 50% das vendas externas. O restante segue para Europa, África e Ásia. De acordo com Roriz Coelho, o mercado brasileiro de resinas cresceu perto de 10% em 2006. E, no primeiro trimestre de 2007, a demanda já superou esse porcentual.

Sua expectativa é de que, em 2007, as vendas cresçam tanto ou mais que em 2006. "Nesse ritmo, todos os novos projetos em curso no setor terão sua
produção absorvida."

Na condição de presidente do Sindicato da Indústria de Resinas Plásticas (Siresp), Roriz Coelho diz que, sem o aumento da oferta garantido pelos novos investimentos que estão em marcha, o Brasil correria o risco de ter que importar mais resinas. Hoje, do total de resinas consumidas pelo mercado brasileiro, cerca de 20% vem de fora do país. O faturamento com vendas de resinas pode chegar a cerca de US$ 18,6 bilhões em 2007, com base em projeções de 4% a 4,5% para o crescimento do PIB.

É justamente de olho na expansão do consumo futuro que a Rio Polímeros já planeja sua expansão, pouco tempo depois de ter nascido - a empresa foi inaugurada em junho de 2005, após oito anos de engavetamento de projetos de criação de um complexo gás-químico no estado do Rio. A Rio Polímeros começou suas atividades em regime de pré-operação e curva de aprendizado e, logo em seguida, colocou a marca Riopol no mercado, fazendo um trabalho de pré-marketing e conquista de clientes.

Controlada por Suzano (33,3%), Unipar (33,3%), Petrobras (16,7%) e BNDESpar (16,7%), a Rio Polímeros tem um diferencial em relação às demais petroquímicas do país: é a única que utiliza gás natural ( oriundo da Bacia de Campos) como insumo básico, e não nafta. Além disso, a empresa também é o primeiro complexo petroquímico que nasceu integrando a primeira e a segunda geração da cadeia produtiva petroquímica. Ou seja, a produção da matéria-prima essencial dos polietilenos, o eteno - obtido de derivados do gás natural e feito na unidade de craqueamento (a chamada primeira geração) -, é integrada à fabricação das resinas plásticas (segunda geração), realizada na unidade de polimerização.

A empresa tem capacidade para produzir 520 mil toneladas de eteno (todo ele consumido pelo próprio Rio Polímeros), 75 mil toneladas de propeno e 540 mil toneladas de polietileno. A produção de propeno é transportada por tubulação à Suzano Petroquímica, que fica nas proximidades. "Os executivos da Rio Polímeros estão estudando as possibilidades de expansão", diz Roriz Coelho. De acordo com o diretor superintendente da Rio Polímeros, Eduardo Karrer, que assumiu o cargo em janeiro de 2007, qualquer movimento em direção a um aumento de capacidade produtiva depende de matéria-prima - gás fornecido pela Petrobras - hoje não disponível.

A empresa já manifestou à Petrobras a intenção de ajudar na formulação de um planejamento de fornecimento de gás a longo prazo, que viabilize projetos de crescimento. "Hoje ainda estamos numa curva ascendente de recebimento de matéria-prima", diz Karrer. Por isso, a empresa operou em 2006 usando 80% da capacidade. A produção da Rio Polímeros começou de forma oficial em abril de 2006. Até dezembro, produziu 319 mil toneladas. Foram vendidas 179 mil toneladas no mercado doméstico e exportadas outras 114 mil. Isso faz da Rio Polímeros a sétima maior exportadora do estado do Rio. A empresa mantém um contrato de exportação com a trading norte-americana Vinmar International - para vendas externas de 1,2 milhão de toneladas de polietileno por dez anos.

O acordo, que entrou em vigor em julho de 2006, prevê volumes decrescentes de fornecimento de produto: serão exportadas 150 mil toneladas anuais nos primeiros quatro anos e, nos seis restantes, 100 mil toneladas. A empresa já está exportando 12,5 mil toneladas/mês.

Para 2007, as expectativas são mais otimistas. A Rio Polímeros detém hoje entre 20% e 25% de market share interno de polietilenos. E está apostando em uma nova fase de crescimento e consolidação, na qual ganha força a área de pesquisa e desenvolvimento, com o lançamento de novos produtos. A empresa também definiu nova estratégia comercial. "Estamos mudando nosso perfil de vendas", diz Karrer. Isso porque a Rio Polímeros tinha uma atuação de vendas 100% spot - ou seja, avulsa - e agora vai comercializar seus produtos sob contratos. "Assim melhoramos a gestão, além de garantirmos maior fidelização de clientes."

Outra petroquímica fluminense que vem apostando no aumento da demanda e se preparando para atendê-la é a Petroflex. A empresa, criada em 1962 pela Petrobras, foi a primeira experiência de privatização do setor petroquímico, 30 anos depois de sua fundação. Além da unidade industrial do Rio - a maior da empresa, que responde por cerca de 50% da capacidade total -, a 3 Petroflex tem fábricas no pólo petroquímico de Triunfo, no Rio Grande do Sul, e na cidade do Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Seu controle é dividido entre a Suzano Petroquímica, a Braskem e a Unipar, que detêm, em conjunto, 50,3% do capital.

Segundo seu presidente, Wanderley Passarella, a empresa realiza, desde 2003, um plano estratégico de expansão, já se preparando para um novo ciclo de demanda. Os investimentos somam US$ 65 milhões e visam aumentar a capacidade teórica de produção de 320 mil para 440 mil toneladas ao ano. "Além dessa expansão física, estamos investindo em infra-estrutura tecnológica e no desenvolvimento de produtos", destaca o executivo.

Mas a Petroflex enfrenta alguns problemas para levar efetivamente adiante um aumento de produção: a escassez de sua matéria-prima principal, o butadieno, que é um derivado da nafta (que, por sua vez, deriva do petróleo). "Não conseguimos operar à plena capacidade por conta dessa limitação de matérias-primas", diz Passarela. Hoje, a produção efetiva tem variado entre 360 mil e 380 mil toneladas/ano. "Dependendo do mix de produtos, podemos atingir 410 mil toneladas."

A Petroflex tem detectado um mercado interno forte. Tanto que, em abril de 2007, sua produção, nas três unidades, foi de aproximadamente 32 mil toneladas, cerca de 10% a mais em comparação com o volume de março (29 mil toneladas). Cerca de 70% da produção da empresa é vendida internamente - principalmente para o eixo Rio-São Paulo. O restante é exportado. Mais da metade da borracha fabricada pela Petroflex é consumida por produtores de pneus e o restante, por fabricantes de calçados, adesivos, plásticos, entre outros clientes.

A expectativa de Passarella é de que o mercado de borracha sintética vá crescer em ritmo mais forte nos próximos anos do que nos cinco anos passados. Isso por causa do aumento da demanda da China e de países do Leste Europeu. O mercado interno, diz ele, também tem boas perspectivas, graças às multinacionais fabricantes de pneus instaladas no Rio, em São Paulo e na Bahia.

Algumas dessas empresas, lembra ele, ainda não operam à carga total. E o real valorizado vem afetando os negócios da Petroflex, principalmente na área externa, pois a borracha é uma commodity com preço referenciado em dólar. Além disso, o real forte atrapalha também as exportações dos clientes, como fabricantes de pneus e calçados. E ainda abre espaços para a concorrência de importados. Resultado: mais importações afetam a produção local e, por conseqüência, a compra de matérias-primas da Petroflex.

Para compensar as dificuldades de exportação nesse cenário de real valorizado, a empresa tem dado preferência aos embarques de produtos de maior valor agregado à venda no mercado interno e no Mercosul. Apesar de o mercado doméstico estar demonstrando apetite, Passarella diz que hoje a empresa conta com mais capacidade produtiva do que demanda. "Mas, se a dinâmica de crescimento do setor se confirmar, vamos ter de pensar em novos investimentos a partir de 2008 ou 2009."

Essa dinâmica está baseada na demanda agregada de borracha natural e sintética, que cresce em paralelo ao PBI mundial. Segundo Passarella, há previsões de um gargalo na oferta de borracha natural nos próximos cinco ou seis anos, devido a vários fatores, entre eles os climáticos. Com isso, a procura por borracha sintética aumentará numa proporção maior. "De qualquer forma, para realizar nova expansão de capacidade, a Petroflex depende de disponibilidade de matéria-
prima, o butadieno."

Importar poderia ser uma solução, mas o preço - que bateu recorde de alta em meados de 2007 - é inviável por enquanto. "Seria preciso fazer uma conta na ponta do lápis para ver se vale a pena, de acordo com as possibilidades de preço para o produto final", diz. Uma das perspectivas domésticas para solucionar esse gargalo seria a esperada entrada em operação do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, prevista para o início da próxima década.

A receita da Petroflex tem crescido nos últimos anos, em dólar, principalmente em razão da alta do preço da borracha. Já a produção oscilou em torno de 350 mil toneladas entre 2003 e 2006. Ao ser privatizada em 1992, a empresa realizou grandes investimentos para modernizar, automatizar e melhorar a qualidade em suas três fábricas. (Fonte: Revista Valor Econômico)