Ultra reduz interesse pelo Comperj
12/07/2007

Um certo dia, há mais de dois anos, o então presidente-executivo da Ultrapar, a holding do grupo Ultra, Paulo Cunha, procurou a alta direção da Petrobras com um projeto debaixo do braço. A idéia era construir uma refinaria à base do óleo pesado que a estatal produz na bacia de Campos (RJ) que teria uma característica especial: em vez de fazer majoritariamente combustíveis, a unidade seria, principalmente, produtora de petroquímicos básicos, como eteno, propeno, benzeno e paraxileno. A Petrobras, ansiosa por valorizar seu óleo pesado, gostou tanto que transformou a idéia no seu maior projeto hoje em andamento, um gigantesco complexo industrial de pelo menos US$ 8,4 bilhões.

Na proporção inversa ao interesse da estatal e ao aumento das cifras envolvidas, o Ultra foi arrefecendo seu ânimo, empurrando o cronograma para adiante e, mais recentemente, fechou-se em copas sobre o tema. Segundo fontes ouvidas pelo Valor, está ficando cada vez mais evidente que o interesse do grupo paulista é restrito às matérias-primas para a linha de produtos da sua maior controlada petroquímica, a Oxiteno, principalmente após o pesado investimento feito na compra da rede de distribuição de combustíveis da Ipiranga nas regiões Sul e Sudeste.

Formalmente, nada mudou até agora. Petrobras, Ultra e BNDES são os únicos que assinaram documentos comprometendo-se a tocar o projeto. Mas os discursos são bem diferentes daqueles expostos em março de 2006, quando foi apresentado publicamente o projeto do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Cunha, que em outubro do mesmo ano decidiu restringir-se à presidência do Conselho de Administração da Ultrapar, dizia naquela época que seria sócio em partes iguais com a Petrobras do projeto como um todo.

Hoje, não só a Petrobras já deixou clara sua intenção de ser a controladora da principal unidade do Comperj, a refinaria petroquímica nascida da idéia de Cunha, como é cada vez mais evidente, segundo especialistas do setor, que o seu principal parceiro não será o Ultra, mas a empresa que emergir do processo de consolidação do setor petroquímico na região Sudeste.

Na medida que o Ultra não tem participado dos debates e ações referentes a essa consolidação, estaria aberto o espaço para que os grupos Unipar e Suzano disputem a primazia de liderar esse esforço. Fica, de acordo com a mesma linha de análise, também mais evidente que a estratégia do Ultra é a de assegurar matéria-prima para a expansão das suas atividades na fabricação de óxido de eteno, etilenoglicol, éteres glicólicos, fluidos químicos e outros produtos das linhas distribuídas pelas suas cinco fábricas no Brasil e duas no México. Além disso, o grupo terá que cuidar da sua consolidação no mercado de distribuição de combustíveis tradicionais, enquanto assume papel de liderança nas pesquisas alcoolquímicas, sem descuidar da Ultragaz, distribuidora de GLP (gás de cozinha).

Procurado pelo Valor durante três semanas, Paulo Cunha não quis se manifestar sobre o assunto.

A Petrobras já manifestou sua intenção de resolver a questão societária do Comperj até o final deste ano, quando chegará o momento de "colocar a mão no bolso" para fazer os primeiros investimentos no projeto. E já disse também que seu desejo é ver essa equação societária definida juntamente com a reestruturação da petroquímica no Sudeste.

Há dois meses, o grupo Unipar vem falando e praticando a mesma linguagem. Primeiro, comprou a participação dos empregados na Petroquímica União (PQU) e, há duas semanas, anunciou a compra da parcela da americana Dow na mesma central petroquímica de Mauá (SP), além de ficar também com a única fábrica de polietilenos que a Dow possuía no Brasil.

Esse último movimento revelou, de quebra, que a Dow está fora do grande jogo das principais matérias-primas termoplásticas no país, optando por fortalecer suas posições em Baía Blanca, na Argentina. O grupo Suzano, líder em polipropileno, ainda não disse que sim e nem que não às investidas da Unipar, seja para associação, seja para incorporação.

Mas já manifestou uma possível intenção de exercer o direito de preferência sobre parte das ações dos empregados e da Dow na PQU, o que fará sua participação saltar de 6,8% para quase 10% do capital votante da central. É um sinal de que não vai assistir passivamente a ofensiva da rival.

O Ultra, que tem participação menor na PQU (1,9%, via Oxiteno), mas integra seu bloco controlador, ainda está estudando se também exercerá seu direito de preferência, passo que, se concretizado, reforçará sua estratégica posição na central paulista, mas pouco contribuirá para esclarecer o mistério quanto ao seu futuro no setor. (Fonte: Valor Econômico)