Investimento deve crescer 62% até 2010, prevê BNDES
18/06/2007

Impulsionados pela forte demanda externa e pelo aumento da renda e do consumo interno, 16 setores da economia brasileira planejam investir R$ 1,050 trilhão nos próximos quatro anos, 62% a mais do que os R$ 650 bilhões investidos entre 2002 e 2005.

Os dados indicam um crescimento real de 10,1% ao ano nos investimentos desses setores, considerando inflação média de 4,5% no período. Eles representam 9% do PIB do país, mas respondem por 63% de todo o investimento da indústria e por 68% do da infra-estrutura.

Resultado de um mapeamento de projetos de investimentos feito pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), a previsão é considerada factível por economistas, mas recebe ressalvas, principalmente no setor de infra-estrutura.

Elaborado pelos economistas Ernani Teixeira Filho e Fernando Puga, o estudo mapeou investimentos em nove setores da indústria. Entre eles, petróleo e gás, mineração, siderurgia e papel e celulose, carros-chefe da área, com taxas de expansão acima da média por causa do bom cenário internacional.

O mapeamento, a ser divulgado nesta semana, analisou também cinco setores da infra-estrutura, um de serviços e um da construção civil.

"Estamos entrando numa fase de alta dos investimentos por causa da conjunção de dois fatores: fim da restrição externa e situação favorável no mundo", disse Teixeira Filho.

Os nove setores da indústria devem investir R$ 380 bilhões de 2007 a 2010, ante R$ 207 bilhões de 2002 a 2005, um crescimento real por ano de 12,9%.

Economista-chefe do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), Edgard Pereira acredita que na indústria a previsão seja totalmente factível, mas aponta o que vê como lado negativo.

"Esses números refletem a atual situação da economia brasileira. Setores voltados para a exportação vão bem, enquanto nos demais as perspectivas não são positivas."

Ele destaca que o estudo mostra que 77% dos investimentos industriais estão concentrados em quatro setores (petróleo e gás, siderurgia, mineração e papel e celulose), "intensivos em capital, mas com um coeficiente de emprego relativamente pequeno".

Na sua opinião, boa parte dos setores não mapeados pelo BNDES, que representam 37% dos investimentos na indústria, está patinando, como têxtil, calçados e vestuário.

Há dúvidas, porém, sobre as previsões do BNDES. Ex-presidente do Banco Central e sócio da consultoria Tendências, Gustavo Loyola avalia como alto um investimento de R$ 15,6 bilhões nos próximos quatro anos em eletroeletrônica.

"Parece alto, diante da valorização do real e da concorrência chinesa, mas não chega a ser determinante no conjunto do setor", disse Loyola.

Diretora da MB Associados, Tereza Fernandez aponta, além do eletroeletrônico, ressalvas nas previsões dos setores automotivo e petroquímico na área industrial.

Ela avalia existir uma certa "insegurança" na indústria petroquímica por causa da definição sobre a matéria-prima do setor: nafta ou gás. "Nos próximos cinco anos, não temos gás, depois, se investirmos, teremos, mas hoje dá uma certa insegurança", afirma sobre o estudo, que prevê um aumento real de 14,8% por ano na área entre 2007 e 2010.

No caso do setor automotivo, ela diz que caminhões estão "bombando", mas em automóveis e comerciais leves ainda há dúvidas. "Nessa área, o setor quer ter a certeza de que não vai micar de novo, como aconteceu em 1997." O próprio estudo do BNDES, contudo, registra um crescimento anual de 6,4% dos investimentos, abaixo da média dos setores mapeados, de 10,1%.

Fernandez e Loyola acreditam, porém, que o mapeamento do BNDES está em linha com o ritmo atual da economia. Segundo eles, a alta de 7,2% nos investimentos no primeiro trimestre, divulgada pelo IBGE, corrobora essas previsões.

Eles apostam em alta da taxa de investimento na casa dos 10% reais neste ano, o mesmo número levantado pelo BNDES para os 16 setores. E acreditam que essa taxa deva fechar o ano entre 17,2% e 17,4% do PIB, acima dos 16,8% do ano passado. (Fonte: Folha de S. Paulo)