Fabricantes buscam alternativas ao petróleo em fontes renováveis
21/05/2007

Seja aperfeiçoando tecnologias já existentes, seja partindo para a busca de novas alternativas técnicas, é fato que praticamente todas as empresas do setor petroquímico, e não apenas a Oxiteno e a Dow, estão de alguma forma voltadas para projetos alcoolquímicos. A Braskem já tem uma planta-piloto em Triunfo (RJ) e já projeta uma unidade comercial para Camaçari (BA).

A própria Petrobras, ao mesmo tempo que corre a todo vapor para viabilizar o projeto da refinaria petroquímica de Itaboraí, peça central do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) que vai dar uso mais nobre ao petróleo pesado da bacia de Campos (RJ), deve inaugurar ainda este ano uma usina-piloto de etanol lignocelulóico no seu centro de pesquisas (Cenpes), no Rio de Janeiro.

Segundo Manoel Carnaúba Cortez, diretor industrial da Unidade de Insumos Básicos da Braskem, a planta-piloto de Triunfo foi construída a partir de um pedido do Comitê Executivo da Braskem para que a empresa voltasse a estudar a retomada da produção de eteno a partir do álcool. Até 1992 a antiga Salgema, hoje uma divisão da maior petroquímica privada do país, operou em Maceió (AL) uma unidade de eteno a partir do álcool, ou etanol, como matéria-prima para a produção de PVC.

Cortez disse que em Triunfo estão sendo avaliadas as evoluções da tecnologia usada no processo produtivo e estão sendo introduzidos aperfeiçoamentos, como no que diz respeito à geração de efluentes. A idéia é explorar o nicho do mercado de plásticos "com um apelo interessante", ou seja, oferecer ao consumidor plásticos de origem verde. "Queremos no segundo semestre deste ano estar submetendo isso à alta direção da Braskem", disse o executivo.
Ele avalia que se o mercado confirmar o que a empresa vem percebendo, é possível que ela parta para uma primeira unidade comercial em Camaçari, de 100 mil a 200 mil toneladas ano, podendo evoluir para a produção de polietileno e polipropileno a partir do álcool já em 2009. A Braskem ainda está calculando os custos do projeto.

Cortez ressalta que, por enquanto, o álcool ainda não é consistentemente competitivo com a nafta petroquímica. Ele disse que, do ponto de vista logístico, a unidade alcoolquímica precisa que haja pelo menos um alcoolduto para Santos ou São Sebastião, assegurando o fluxo de matéria-prima por cabotagem. Cortez avalia também que a tecnologia da lignocelulose é o que vai assegurar, em cerca de cinco anos, competitividade da alcoolquímica com a petroquímica.

A Suzano Petroquímica e a Unipar, os dois outros maiores grupos nacionais do setor, também estão voltando suas atenções para a alcoolquímica. José Ricardo Roriz Coelho, co-presidente da Suzano, entende que haverá rapidamente um mercado para plásticos originários de fontes renováveis independente do preço. "Achamos que vários clientes nossos vão preferir produtos de fontes renováveis. Vai haver um mercado, mesmo pagando um preço mais alto", avalia.

Coelho destaca que no passado também o preço dos produtos alcoolquímicos não era levado em conta, mas por outra razão. É que naquela época (anos 1950/1960), o petróleo era muito escasso no Brasil e aquele era o problema maior. Com a descoberta da bacia de Campos (anos 1970) e com a abertura às importações de óleo, a matéria-prima fóssil se impôs rapidamente.

Segundo o executivo, além dos biopolímeros, uma vertente que tem sinergia com o histórico da Suzano como produtora de celulose de madeira, a empresa está também investindo em pesquisa de nanotecnologia, pensando no futuro das embalagens inteligentes e dos plásticos mais leves para produtos da linha branca, por exemplo.

Para Coelho, até onde a linha do horizonte permite enxergar, dificilmente as fontes alternativas irão contribuir com mais de 10% de matéria-prima para a indústria de plástico. Antes de mais nada, ele entende que será necessário resolver o problema de assegurar os insumos para a indústria química sem gerar risco de escassez para a produção de alimentos, uso que ele considera prioritário. "O Comperj vai produzir 1,3 milhão de toneladas de etano. Já pensou a quantidade de álcool que seria necessária para uma unidade desse tamanho?", pergunta.

Mas a economista Valéria Bastos, do BNDES, insiste que é "fundamental ampliar o escopo do etanol no sentido de uma redescoberta da indústria alcoolquímica que ofereça uma alternativa concreta de matérias-primas para atender o crescimento almejado pelo Brasil, sem pressões adicionais sobre o já expressivo déficit da balança comercial da indústria química (estimado em US$ 8,6 bilhões em 2006)".

Para ela, "parece inexorável" também que a a volta da alcoolquímica gere uma nova rodada de fusões e aquisições no setor na qual "a intervenção do setor público será fundamental para a incorporação de novos atores oriundos, principalmente, da indústria química brasileira". (CS e FG). (Fonte: Valor Econômico)