Estratégia para ampliar o consumo
07/05/2007

A cadeia brasileira do plástico está empenhada em encontrar caminhos que tornem o setor mais competitivo nos mercados interno e externo. Representantes de todas as pontas do complexo processo de produção de plástico participam há seis meses da elaboração de um um documento que pretende identificar estratégias para colocar o Brasil em posição de destaque no novo contexto mundial.

Atualmente, o eixo da competitividade petroquímica está se transferindo dos Estados Unidos e Europa para o Oriente Médio e China. Com matéria-prima abundante, o petróleo, os países do Oriente Médio têm escala de produção e preços competitivos. A China, por sua vez, além de grande escala de produção, possui mão-de-obra barata e inunda vários países com seus artefatos de plástico - fortes concorrentes dos produtos brasileiros no mercado nacional. Além da competição global, o setor sofre, no front interno, com os efeitos dos juros altos, elevada carga tributária e crédito restrito.

Das discussões do "Estudo para o aumento da competitividade da indústria plástica brasileira" participam a Petrobras, fornecedora da nafta, as petroquímicas produtoras de resinas, as indústrias de transformação de plástico, entidades de classe e representantes do governo.

O primeiro esboço do documento será entregue a Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior na 11ª Brasilplast, terceira maior feira da indústria do plástico do mundo, que começa hoje e vai até o dia 11, no Pavilhão de Exposições do Anhembi, em São Paulo. O evento contará com quase 1,5 mil expositores do Brasil e exterior.

Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), Merheg Cachum, toda a cadeia concorda que há necessidade urgente de ajustes de rota. O documento, que deverá ser finalizado em setembro, é abrangente e está dividido em vários tópicos: tecnologia e inovação, globalização, custo de capital, tributos, mercado, meio ambiente e terceira geração, constando deste último item a necessidade de atualização do parque industrial.

O setor de transformação conta com quase 9 mil indústrias, 86% delas de pequeno e médio portes, que empregam o maior número de pessoas. Mas também são elas as que mais sofrem com escassez de crédito e tributos elevados. "A indústria do plástico precisa ter incentivo para a compra de máquinas mais avançados, caso contrário será impossível se pensar em ganho de competitividade", diz Cachum.

José Ricardo Roriz Coelho, presidente do Sindicato das Indústria de Resinas Sintéticas no Estado de São Paulo (Siresp), que também participa do estudo avalia que a riqueza do documento está em sua amplitude - com itens que vão desde a elevada carga tributária, a entrada de produtos chineses até a reciclagem de produtos plásticos, qualificação de mão-de-obra e a aproximação com as universidades na busca de produtos menos agressivos ao meio ambiente.

"Nos preparamos para resistir à investida chinesa, que já é um incômodo para o setor, interna e externamente. Além disso, lutamos contra uma carga tributária da ordem de 40% (em outros países varia de 10% a 20%), o dólar a R$ 2, que estimula as importações, e as altas taxas de juros que afugentam os investidores", diz Roriz Coelho. Segundo ele, apesar das dificuldades, parte dos problemas é responsabilidade do próprio setor. "Muita coisa é culpa nossa. E será em cima desses pontos vulneráveis que trabalharemos. A chave para superarmos esses obstáculos é nos tornarmos mais competitivos."

O diagnóstico coincide com o feito por Cachum, que aponta dois pontos básicos para a expansão do setor: "Para o mercado interno, a inovação no design e na criação de novas resinas; e para o mercado internacional, a mudança de foco de commodities para produtos com maior valor agregado".

O setor plástico brasileiro tem dado ao longo dos últimos anos demonstrações de que tem fôlego, apesar das dificuldades conjunturais. Em 2006, o faturamento bruto chegou a US$ 18,66 bilhões, aumento de 16,2% em relação aos US$ 16,04 bilhões do ano anterior, de acordo com a Abiplast. O consumo aparente de resinas termoplásticas ficou em 4,53 milhões de toneladas e o de transformados de plásticos em 4,56 milhões de toneladas, aumento de 7,6% em relação ao período anterior.

O estudo para aumentar a competitividade do setor de plástico brasileiro também pretende apontar estratégias para elevar o consumo interno, que atualmente é de 23 kg de plástico por habitante, muito abaixo de Estados Unidos e Europa, onde a média é de 93 kg per capita por ano. Segundo Cachum, é preciso que o governo dê apoio às empresas de pequeno e médio portes para que elas tenham acesso a crédito para trocarem seus equipamentos, muitos deles já obsoletos. No atual cenário de crescente concorrência com os produtos chineses, a capacidade ociosa da indústria de transformação brasileira hoje já é de 20%. Cachum diz que as pequenas e médias empresas são as que sofrem o maior impacto do câmbio a R$ 2. "Como é que vamos competir com o dólar a este preço ?"

Segundo o presidente da Abiplast, apesar dos aspectos conjunturais desfavoráveis, o Brasil deverá crescer na remessa de embalagens diversificadas ao exterior a partir deste ano. "Com nossa criatividade poderemos ganhar novos mercados lá fora. A versatilidade brasileira e seu potencial inovador é que nos ajudarão a sobreviver."

"Apesar desse esforço dos fabricantes, em nosso estudo já detectamos a necessidade de uma maior aproximação entre o meio acadêmico e o industrial na busca conjunta de soluções para o mercado", reforça o presidente do Siresp. Para Roriz, as parcerias, como a que ocorreu recentemente entre a Suzano Petroquímica e a fabricante de eletrodomésticos Suggar, devem ser estimuladas. Por meio da nanotecnologia desenvolveu-se uma resina de polipropileno com nanoestrutura e prata em sua constituição. Por conta disso, as cubas de lavadoras semi-automáticas ganharam a propriedade bactericida e maior atratividade no junto ao consumidor.

No mercado interno, de acordo com Roriz Coelho, as perspectivas este ano também são favoráveis por conta de vários fatores, entre eles, a expansão da agricultura - grande consumidora de plástico, seja para as embalagens de fertilizantes e defensivos agrícolas, na plasticultura, bem como na colheita, com o acondicionamento da produção em embalagens.

Outro aspecto positivo para o setor é a expansão da construção civil, com o aumento da oferta de crédito para financiamento de imóveis. Esse segmento é grande consumidor de tubos plásticos. No nicho automotivo é evidente o esforço das montadoras para aumentar a utilização de componentes plásticos embarcados, que reduzem o consumo de combustível e elevam a segurança dos carros.

E, finalmente, os últimos relatórios das redes atacadistas dão conta de que o consumo de alimentos pela população também vem crescendo nos últimos anos, com boas expectativas para este ano.(Valor Econômico)