Bolívia quer pagar US$ 70 milhões por refinarias
23/04/2007

No encontro de segunda-feira passada, o presidente da Bolívia, Evo Morales, disse ao colega brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que deseja pagar US$ 70 milhões pelas duas refinarias da Petrobras na Bolívia. O encontro aconteceu na Venezuela, durante a cúpula dos países da América do Sul para discutir energia -o álcool foi destaque na pauta.
Contrariado, Lula respondeu que não aceitava menos do que o preço já investido pela estatal brasileira nas refinarias, cerca de US$ 215 milhões, considerando o que foi pago na compra, em 1999, e investimentos em modernização.
Segundo a Folha apurou, o brasileiro ressalvou ainda que não estava preocupado com o efeito econômico do conflito. Lembrou que a Petrobras tem um caixa de R$ 25 bilhões e um plano de investimentos neste ano da ordem de R$ 50 bilhões. Segundo o petista, o impacto econômico seria desprezível para ela, ainda que Morales não pagasse nada.
Mais: falou que a Bolívia poderia pagar com gás, já que não tem muitas opções de venda do produto para outros países. Por esse motivo, o Planalto está tranqüilo em relação ao suprimento futuro de gás do vizinho, ainda que a crise se agrave. Lula também já pediu à Petrobras que tente agilizar alternativas de suprimento.
Na conversa, Lula fez questão de sublinhar para Morales que o efeito político seria ruim para ele, o petista, mas pior para Morales e o seu país.
Afirmou que a Petrobras não investiria mais na Bolívia nem o governo brasileiro. Há projetos de financiamento do BNDES para empresas brasileiras construírem estradas na Bolívia. Disse que o sinal dado aos investidores internacionais seria também ruim para o subcontinente sul-americano, mas pior para a Bolívia.
Lula crê que Morales esteja errado. E lhe disse que chegara ao limite em suas concessões políticas. Em conversas reservadas já no Brasil, afirmou ver com preocupação a radicalização adotada por Morales.
Afirmou que, em plena campanha eleitoral no Brasil, teve ação moderada quando o Exército boliviano cercou as refinarias brasileiras. Agora, o presidente já orientou a Petrobras e o Ministério das Minas e Energia a endurecer, inclusive se preparando para fazer contestações em cortes internacionais de arbitragem.

Decepcionado
Lula também se mostrou decepcionado com o que considerou uma visão simplista de Morales sobre biocombustíveis. Na visão de Lula, Morales está seguindo os passos do colega da Venezuela, Hugo Chávez, sem o cacife deste (grande produção de petróleo).
Morales, por outro lado, sofre pressão política interna. No dia 1º de maio, o processo de nacionalização das reservas de gás e petróleo completa um ano, e ele precisa apresentar resultados mais concretos.
A disputa pelas refinarias da Petrobras na Bolívia começou nessa data em 2006, quando as instalações foram invadidas por tropas do Exército, e o presidente Evo Morales anunciou o processo de nacionalização.
As duas instalações - Gualberto Villaroel e Guillermo Elder Bell - juntas processam cerca de 60 mil barris de petróleo e são essenciais para o abastecimento do mercado boliviano de combustíveis.
Em maio do ano passado, dentro do processo de nacionalização, a Bolívia nomeou diretores para as refinarias. Em novembro de 2006, o presidente Evo Morales, em tom de brincadeira, pediu que o governo brasileiro "presenteasse" a Bolívia com as duas instalações.
Ao longo do processo de negociação, a Bolívia sugeriu várias vezes fazer uma espécie de "encontro de contas" entre o valor das refinarias e o que, segundo os bolivianos, a Petrobras deveria de impostos no país. A estatal brasileira sempre negou que tivesse débito com tributos na Bolívia.

Abastecimento
O abastecimento de gás vindo da Bolívia foi normalizado neste final de semana. O governo boliviano anunciou na sexta-feira que reduziria as exportações para Argentina e Brasil devido a manifestações em campos petrolíferos que afetaram a produção. Anteontem, o ministro Silas Rondeau (Minas e Energia) considerou o "assunto encerrado" com a retomada do envio de gás. A exportação para a Argentina foi restabelecida no mesmo dia. (Folha de S. Paulo)