Os novos desafios da alcoolquímica
23/04/2007

A indústria petroquímica nacional está, neste momento, concentrando esforços para o desenvolvimento de matérias-primas alternativas aos derivados de petróleo. Com a perspectiva de um forte aumento da produção mundial de etanol, puxada pelas usinas brasileiras, o setor está ensaiando uma volta a um passado não tão distante, quando fabricantes como Salgema e Companhia Pernambucana de Borracha Sintética (Coperbo) usaram o álcool para fabricar insumos como eteno e butadieno, fundamentais à produção de resinas plásticas. Petrobras, Braskem e grupo Ultra, por meio de sua subsidiária Oxiteno, consideram estratégica a álcoolquímica - processo em que o álcool é usado na produção de químicos e petroquímicos - e desenvolvem pesquisas para avaliar sua viabilidade econômica.



Em processo de retomada de seu papel de líder no setor petroquímico, a Petrobras está desenvolvendo estudos em seu centro de pesquisas, o Cenpes. O diretor de Abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa, diz que os estudos do uso do etanol para a petroquímica ainda são incipientes, mas lembra que a "primeira planta-piloto para a produção de etanol de lignocelulose (a partir do bagaço da cana) deve começar a operar em 2008". Ele aponta que a opção por esse tipo de tecnologia na área petroquímica demandará a construção de plantas específicas para aqueles processos. Caso opte por realizá-los a empresa terá que rever os investimentos para os próximos anos. "Esse é um tipo de projeto que ainda está fora do plano estratégico da Petrobras", afirma.



O gerente de tecnologia petroquímica do Cenpes, João Carlos Frederico de Matos, lembra que por cerca de dez anos a estatal realizou a produção de eteno (matéria-prima do polietileno) a partir de etanol. "É uma tecnologia que já existe e é plenamente dominada pela Petrobras. Já despertou inclusive o interesse de países como a China", frisa. Além de aperfeiçoar o que já conhece, a Petrobras está em busca de novas rotas de tecnologia para a produção de matérias-primas para a produção de polímeros (plásticos e borrachas) a partir do álcool. O objetivo é buscar ganhos em rendimento, eficiência energética e maior competitividade.



"Ainda há muita coisa no mundo das idéias. Na prática são apenas três projetos em andamento na substituição de petroquímicos", conta o pesquisador do Cenpes. Apesar disso, a importância do tema se reflete no aumento do orçamento para a área petroquímica (e álcoolquímica) do Cenpes. Até 2000 eles estavam em torno de R$ 1 milhão por ano; hoje já chegam a R$ 12 milhões. "Com o retorno firme da Petrobras à petroquímica a perspectiva é que em 2008 ele possa saltar para até R$ 30 milhões", avalia Matos. Ao assumir a gerência, há sete anos, ele contava com 20 funcionários. Hoje o número dobrou e 44 pessoas trabalham na área.



A Oxiteno, empresa do grupo Ultra, está investindo na pesquisa do uso de derivados da cana-de-açúcar como matérias-primas renováveis em uma cadeia industrial que complemente, ou até, substitua, em casos específicos, a cadeia petroquímica. As pesquisas da empresa se dão em dois campos. A primeira fronteira tecnológica é a produção do próprio etanol, a partir da pesquisa da hidrólise da hemicelulose e celulose, contidas nas fibras. A hidrólise é um processo químico que permite a produção de açúcares monômeros, passíveis de serem convertidos a álcool, mais do que duplicando a produção específica atual de etanol.



De acordo com o diretor industrial da empresa, Flávio Cavalcanti, a expectativa é que o desenvolvimento de unidades de hidrólise, acopladas a usinas e destilarias convencionais, reduza significativamente os custos de produção do etanol. "Quando isso ocorrer, será possível considerar a utilização do mesmo como matéria-prima para a indústria química, em substituição à petroquímica tradicional", diz. A segunda fronteira de interesse da Oxiteno diz respeito à utilização de açúcares como matéria-prima para a produção em duas cadeias paralelas: a produção de glicóis e a utilização de etanol para a produção de alcoolquímicos.



No primeiro caso, o dos glicóis - insumo básico de produtos como fluidos de radiadores e fibras têxteis - o processo pesquisado é a hidrogenólise, capaz de converter diretamente açúcares em glicóis, atualmente obtidos exclusivamente pela via petroquímica. No caso dos alcoolquímicos, trata-se de retomar e aperfeiçoar, tecnologias existentes e comprovadas, capazes de converter etanol em diversos produtos, muitos dos quais produzidos hoje a partir de matéria-prima fóssil (petróleo e gás).



Maior empresa de especialidades químicas do País, a Oxiteno faz produtos usados em vários segmentos, incluindo têxteis, tintas, cosméticos, detergentes, embalagens e defensivos agrícolas. A empresa investe cerca de 2% de seu faturamento anual - isto é, cerca de R$ 30 milhões - em pesquisa e desenvolvimento. Além de seus projetos internos, a Oxiteno tem hoje 26 projetos em parceria com a Fapesp e o BNDES na área de hidrólise de lignocelulósicos e hidrogenólise de açúcares. Segundo Cavalcanti, caso desenvolva um processo que torne viável a produção de qualquer petroquímico a partir de matérias-primas renováveis, os investimentos futuros da Oxiteno se concentrarão nesta via alternativa.



Viabilidade econômica é entrave maior que a tecnologia



A relação entre oferta e demanda de etanol nos próximos anos é uma das variáveis-chave para os pesquisadores do tema. É ela que vai formar os preços do álcool no futuro e definir se ele é economicamente vantajoso em relação ao petróleo, fonte de matérias-primas como a nafta, hoje encarecidas pela escalada dos preços do petróleo a níveis acima de US$ 70 por barril. A avaliação é minuciosa, especialmente porque foi a questão econômica que fechou as portas da indústria álcoolquímica no Brasil na década de 90.



A partir de 1986, o cenário internacional do mercado petrolífero foi alterado, com os preços do barril de óleo bruto caindo de um patamar de US$ 30 a US$ 40 para um nível de US$ 12 a US$ 20. Esse novo período, denominado "contra-choque do petróleo", colocou em xeque os programas de substituição de hidrocarbonetos fósseis e de uso eficiente da energia em todo o mundo, inclusive no Brasil, que ainda executava o Proálcool.



A Salgema, em Alagoas, foi uma das plantas desativadas que usavam como matéria-prima o eteno a partir do etanol. A unidade pertence hoje à Braskem, que a operou por dez anos até 1992 com eteno. Hoje ela produz 240 mil toneladas/ano de PVC, 460 mil de cloro, 400 mil de soda e 520 mil de EDC a partir de derivados de petróleo entregues pela Unidade de Insumos Básicos da Braskem, em Camaçari, via dutos. A antiga Coperbo, hoje da Petroflex, usava o butadieno feito do etanol, mas hoje também tem a Braskem como forncedora.



"O processo de produção não teria risco, pois é conhecido. A grande questão é a viabilidade técnico-econômica", observa, Suzana Domingues, gerente de tecnologia de processo da Unidade de Insumos Básicos da Braskem na Bahia. Além de eteno, o álcool pode ser fonte para as matérias-primas do PET e do estireno, etre outros. Os diferentes processos empregados na álcoolquímica e na petroquímica implicam no investimento em novas unidades, por isso as companhias do setor tem que estar seguras quanto ao fornecimento de matéria-prima (álcool) no longo prazo.



"Hoje a Braskem consome 4,5 milhões de toneladas de nafta por ano. Ainda não há etanol disponível para cobrir essa demanda e fazer eteno. Além disso, não vale a pena construir uma unidade muito pequena", pondera a pesquisadora. O etanol ainda não tem um cenário tão previsível e seu preço de equilíbrio ainda é uma incógnita, o que deve segurar grandes investimentos. A criação de um contrato futuro de álcool voltado para exportação na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) é considerada importantíssima, já que as petroquímicas trabalham com contratos de pelo menos dez anos.



A logística é o outro ponto preocupante, aponta o consultor Roberto Vila. Ele observa que o transporte de eteno e propeno é complexo e caro, por isso as plantas de álcoolquímica deverão ficar próximas às consumidoras desses produtos, isto é, as fabricantes de resinas. Por outro lado, também é preciso viabilizar o fornecimento de álcool que será a base dessa produção. O que importa é evitar que o transporte reduza a competitividade dos álcoolquímicos frente aos petroquímicos, que têm a vantagem de já terem plantas a pleno vapor.



Para José Ricardo Roriz Coelho, co-presidente da Suzano Petroquímica, ainda é difícil imaginar uma planta álcoolquímica mais rentável que uma unidade petroquímica. "É uma questão de escala. O petróleo está caro, mas não há garantia de fornecimento de etanol a longo prazo. Ele pode ser competitivo se basearmos um investimento no preço de US$ 70 por barril. Se isso mudar, afunda todo seu planejamento. Esse será um nicho dentro das fontes de energia renováveis, mas não uma solução total." (Fonte: Jornal do Commercio Brasil)