Petrobrás passa de concorrente a parceira
26/03/2007

Três anos após o anúncio de sua volta ao setor petroquímico, a Petrobrás deixou de ser encarada como um concorrente imbatível para se tornar aliada das principais companhias do setor. As críticas sobre reestatização ou concorrência desleal ficaram no passado: agora, a estatal é cortejada por todos como parceira ideal em um mercado com forte concorrência global.

Após iniciar, com a compra da Ipiranga, a consolidação da Companhia Petroquímica do Sul (Copesul), espera-se que seja dada a partida no processo de integração das centrais do Sudeste.

“A Petrobrás está voltando ao setor de maneira diferente do que ocorreu antes da privatização, já que privilegia as parcerias com empresas privadas”, avalia o analista Gilberto Pereira de Souza, do Banco Espírito Santo (BES). “E, para qualquer empresa brasileira, é melhor ter a Petrobrás como parceira do que como concorrente.”
“À medida que a Petrobrás tem posição relevante na produção e refino de petróleo, qualquer empresa se sente mais segura se tiver parceria com ela”, concorda o presidente do Grupo Ultra, Pedro Wongtschowski.
Em 2004, as análises sobre o retorno da estatal ao setor eram mais críticas. Os grupos industriais privados temiam a concorrência com o principal fornecedor de matéria-prima. Defensores de um mercado mais aberto ao capital estrangeiro viam um processo de reestatização do setor, que ficaria mais vulnerável a decisões políticas, afugentando investimentos privados. Nem mesmo as declarações de que a estatal voltaria com participações minoritárias e em projetos selecionados acalmaram os ânimos.
Na época, a empresa anunciou investimentos de US$ 1,1 bilhão para o período entre 2004 e 2010. Os recursos seriam destinados à “expansão seletiva” da empresa no setor. Poucos meses antes do anúncio, a companhia comprou o controle da Petroquímica Triunfo, no Rio Grande do Sul, uma das poucas empresas em que manteve participação acionária após a privatização de seus ativos petroquímicos, iniciada em 1992 e terminada em 1994.
No processo, iniciado ainda no governo Itamar Franco, o governo vendeu participações da Petroquisa, subsidiária da estatal, em 15 empresas, com uma arrecadação de US$ 1,882 bilhão. Os ativos começaram a ser construídos ainda na década de 70, quando foram inauguradas as duas primeiras centrais petroquímicas do País, a Petroquímica União (PQU) e a Companhia Petroquímica do Nordeste (Copene).
A participação da estatal se deu, primeiro, pela estatização da refinaria de Capuava, que forneceria matéria-prima à PQU, um empreendimento elaborado pela iniciativa privada, lembra Carlos Mariani, representante de uma das famílias pioneiras na petroquímica brasileira. A refinaria pertencia ao Grupo Soares Sampaio, embrião da Unipar, que se aliou ao capitalista Walter Moreira Salles para estudar investir na construção do pólo paulista. O governo João Goulart, então, estatizou a refinaria e levou a Petrobrás ao negócio.
Já na Copene, o governo inaugurou o chamado modelo tripartite, onde a Petrobrás e as empresas do entorno dos pólos dividam o controle da central de matérias-primas. O modelo perdurou até a privatização, quando a estatal foi obrigada a reduzir sua participação nas centrais a 15% e depois vender as ações de empresas de segunda geração. A estatal manteve fatia em apenas três companhias desse segmento.


PROJETOS


Em seu retorno ao setor, a estatal já conta com cinco projetos, com investimentos de US$ 10 bilhões. O maior deles, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), é responsável por mais de 80% da cifra, e está sendo negociado com o Grupo Ultra e outras companhias do setor.

Com a Braskem, a empresa planeja construir a Petroquímica Paulínia, de US$ 328 milhões. Há ainda uma fábrica de resinas plásticas (US$ 500 milhões) e outra de poliéster (US$ 320 milhões), ambas em Pernambuco, e o complexo acrílico de Minas Gerais, com investimentos de US$ 600 milhões.

Todos os projetos serão feitos em parceria com empresas privadas, diz a empresa. Na avaliação da estatal, o crescimento do parque petroquímico brasileiro garante mais valor ao petróleo produzido no Brasil e fortalece os clientes internos para a produção de suas refinarias. “Em vez de vender o petróleo cru, que tem baixo valor no mercado externo, a empresa vai vender resinas plásticas”, diz Souza, do BES.
O movimento mais esperado pelo setor, porém, refere-se ao papel da empresa na indução de um processo de consolidação das centrais. Na Copesul, o primeiro passo foi dado com a compra da Ipiranga em consórcio com a Braskem e o Ultra. Agora, Braskem e Petrobrás estão sozinhos no controle e terão tranqüilidade para verticalizar a produção do pólo. A integração garante eficiência administrativa e maior controle sobre os rumos da cadeia, além de musculatura para competir no mercado internacional.

Durante a semana, o presidente da Petroquisa, José Andrade de Lima Neto, anunciou que a empresa pretende acelerar as conversas para integrar as centrais do Sudeste, formado pela PQU e pela Rio Polímeros, ambos em parceria com Suzano e Unipar. “A estatal volta ao setor de forma ativa, não só como fornecedora de insumos, mas com participação decisiva na definição dos rumos do segmento no País”, diz, em relatório, a analista da Tendências, Fabiana D’Atri. (O Estado de S. Paulo)