O gargalo na petroquímica
12/03/2007

Ainda finalizando a expansão das unidades de Duque de Caxias (100 mil toneladas) e Mauá (150 mil toneladas), a Suzano Petroquímica anunciou recentemente investimentos de US$ 371 milhões para o período 2008/2012. A companhia estuda a construção de fábrica no Paraná e aumento da capacidade das plantas de Camaçari (BA) e da Rio Polímeros (Riopol).



O plano traçado pela empresa, entretanto, pode parecer ambicioso em relação a seu resultado financeiro. Em 2006, o lucro líquido da empresa foi de apenas R$ 16,7 mil, ante R$ 15,244 milhões em 2005. Já o braço de Papel e Celulose do grupo lucrou R$ 443 milhões, mesmo lançando de uma vez os impactos da compra da Ripasa. Os dados suscitam as especulações em torno da idéia de que, mais cedo ou mais tarde, a família Feffer teria de optar por concentrar esforços no papel.




São duas empresas com negócios e gestão completamente distintos. Nossa prioridade é a rentabilidade e estamos trabalhando para baixar custos, aumentar o mix de produtos de maior valor agregado e expansões via desengargalamento, que são investimentos mais baratos", afirmou o co-presidente da Suzano Petroquímica, José Ricardo Roriz Coelho.




A Suzano trabalha com cenário favorável para 2007, com queda de taxa de juros favorecendo o consumo no mercado interno e sem nenhuma pressão de oferta no mercado internacional, já que nenhum grande projeto do setor tem início de operação prevista para esse ano.




O executivo disse que os resultados do terceiro e quarto trimestres de 2006 refletiram o início da melhora nas margens da companhia. A margem Ebitda da controladora subiu 10,7 pontos percentuais ao longo de 2006, passando de 3,1% no primeiro trimestre para 13,8% no último. A melhora do desempenho é atribuída à recuperação dos preços de venda, iniciada no segundo semestre, aliada à conjuntura de recuo nos preços das matérias-primas no final de 2006, após fortes aumentos durante o ano em conseqüência da evolução de alta no preço do petróleo.




O momento é bom para a petroquímica, com queda de preços da matéria-prima e forte demanda. A Suzano está em posição espetacular porque produz polipropileno, a resina com maior taxa de crescimento no setor, é sócia da Riopol, um projeto integrado, e está muito bem posicionada na região Sudeste, que detém 60% do consumo de plásticos no País", defendeu Roriz.




Mas o fato da Suzano atuar em dois setores que demandam capital intensivo é ponto que levanta discussões entre "papeleiros" e "petroquímicos" da holding. Na avaliação de um executivo do setor petroquímico, em algum momento o grupo terá que escolher em qual deles manter o foco e se desfazer do outro.




Em ambos os lados, a Suzano enfrenta concorrentes de peso. Apesar de o polipropileno ser bela resina, na petroquímica a Suzano não tem operação integrada (entre segunda geração e matéria-prima), a não ser a Riopol com o gás. Já em papel e celulose o grupo tem investido bastante na área florestal", ponderou.




Para fonte próxima do grupo, entretanto, não há tratamento diferenciado para as duas empresas dentro da holding, e a possibilidade da Suzano abandonar a petroquímica é remota. "Isso não existe. O lucro baixo do último ano se deve a investimentos pesados, como a compra da Polibrasil, que gerou endividamento. A Braskem também já passou por isso. É tudo parte de um movimento estratégico", afirmou.




Na avaliação de Luiz Otávio Broad, analista da Ágora Corretora, os resultados do braço petroquímico devem começar a se recuperar em 2007, com o primeiro ano de operação integral da Rio Polímeros e soma de ganhos com a venda da participação acionária na Politeno.




No final de 2006, a geração de caixa começou a apresentar melhora. Nossa projeção é de que a empresa feche 2007 com lucro de R$ 8 milhões", disse o analista, para quem a petroquímica continuará como foco da Suzano Holding.




Para Marcos Paulo Fernandes Pereira, analista da Fator Corretora de Valores, é preciso levar em conta que os dois setores passam por momentos totalmente distintos, com o papel e celulose fortemente valorizados pela demanda chinesa e fechamento de capacidades no Hemisfério Norte. No ano passado o preço da celulose chegou ao pico de US$ 700 por tonelada, bem acima da média histórica.




"Por isso é difícil comparar as duas coisas. A Suzano Petroquímica passou por reestruturação em 2005/2006, iniciado com a aquisição e posterior incorporação da Polibrasil e concluído com a transição de seu comando. Os investimentos citados por eles são factíveis e o resultado atual não diz muita coisa", acrescentou. Ele acredita que a empresa tem bom potencial de geração de caixa futuro, especialmente com a expansão prevista para o mercado de polipropileno, cujo consumo teve alta de 12,5% em 2006. Além disso, as dívidas contraídas com os recentes investimentos começarão a ser amortizadas em breve.




Expansão esbarra no fornecimento de matéria-prima




O novo plano de expansão da Suzano Petroquímica, ainda não aprovado pelo Conselho, até segunda ordem não é definitivo: segundo o co-presidente da empresa, José Ricardo Roriz Coelho, ele depende de fatores como o crescimento da economia, evolução do mercado petroquímico e condições de oferta de matéria-prima. "A Suzano tem optado por caminho de valorizar suas ações em Bolsa antes de mais nada, por isso interessa abrir esse tipo de plano à imprensa", diz especialista na área.




No caso da Riopol, a expansão não demanda fortes recursos, mas esbarra no fornecimento de gás pela Petrobras, o que teria impedido movimentos até a presente data. A nova planta de polipropileno no Paraná, com capacidade projetada de 200 mil toneladas/ano, já tem boa parte do propeno - 140 mil das 200 mil toneladas - garantido por contrato com a refinaria da Araucária (Repar), da própria Petrobras. Resta saber se a estatal disponibilizará o restante como prometido.




O projeto seria interessante para dar destino a essa matéria-prima sem os atuais custos logísticos de desviá-la para Rio e São Paulo. Já a expansão da capacidade produtiva de Camaçari (BA), das atuais 125 mil para 200 mil toneladas de polipropileno ao ano, é mais complexa porque envolve o fornecimento de matéria-prima pela concorrente Braskem.




A empresa estuda reter a parte da matéria-prima recebida da Refinaria Landulfo Alves (RLAM) hoje enviada para as plantas do Rio de Janeiro.




Diante dos novos planos de expansão, o tema da consolidação de ativos petroquímicos no Sudeste tem sido mantido longe dos holofotes. Para Pereira, da Fator, os planos de consolidação da região, que envolvem especialmente Suzano e Unipar, com a Petroquímica União, continuam de pé, mas sem data certa para se concretizarem.




"Não é possível prever se a Suzano será consolidadora ou consolidada. Mas esse processo faz sentido, especialmente pela complexidade das negociações de preços no setor. O canibalismo entre os players acaba gerando margens mais apertadas no Brasil que em outros mercados, onde também se enfrenta problemas como a alta da matéria-prima", analisa.




Para especialistas, entretanto, o calcanhar de Aquiles da evolução desse movimento hoje é o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), encabeçado pela Petrobras. A definição do desenho societário do projeto é considerada fundamental para qualquer passo das empresas do setor.




"A Petrobras está exigindo que o parceiro participe nas duas pontas (primeira e segunda geração), o que está dificultando. Além disso, que empresa tem capital no Brasil para entrar com 20% de um projeto de US$ 8 bilhões?", indagou um consultor da área.




O temor das petroquímicas é que a estatal decida tocar o complexo sozinha, monopolizando a produção da cadeia.




"Isso vai decidir se a petroquímica no Brasil continuará privada ou voltará a ser estatal. Não dá para competir com a Petrobras se for integrada do petróleo ao produto final. Ninguém vai fazer nada até lá", disse ele.(Fonte: Jornal do Commercio Brasil)