Polos Emergentes
12/02/2007

O mapa da indústria do plástico no Brasil vem passando por grandes transformações nos últimos anos. Ao destaque dos grandes centros produtores, que aparecem da faixa do Sul ao Sudeste, começam a ser acrescentados pequenos pontos do Centro-Oeste, Nordeste e Norte do país, regiões que cerca de dez anos atrás eram ignoradas na cartografia do setor. Juntos, eles formam hoje os pólos industriais do plástico e, pelo desempenho que vêm demonstrando, indicam que o crescimento da produção brasileira passa, inevitavelmente, pela descentralização.

Não que São Paulo, sede de metade das 7.898 fábricas do setor, ou Santa Catarina, segundo maior produtor nacional, corram o risco de perder a majestade. Mais provável é que outras regiões, como Goiás, Alagoas, Bahia, retirem da produção de materiais plásticos parte cada vez mais significativa de suas economias, sem comprometer a solidez do setor em outros Estados.

Em 2003, a participação de São Paulo na produção do setor, estimada em 4 milhões de toneladas, foi de 44%, segundo a MaxiQuim Assessoria de Mercado. Um número que surpreende - mas não preocupa - o presidente do sindicato paulista e da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), Merheg Cachum, que mantinha ainda a estimativa de anos anteriores, de 48%. “Algumas empresas devem ter migrado para outros Estados, mas essa mudança praticamente não altera a indústria paulista, que vai continuar a crescer por ser o maior centro produtor, com tecnologia e mão-deobra altamente qualificadas, e principal foco consumidor do país, afirma. Não há dados na Abiplast sobre o número de empresas que teriam aberto fábricas em outros locais.

Do Centro-Oeste ao Norte do país, um dos fatores comuns entre as regiões que estão atraindo essas indústrias é a concessão de incentivos fiscais. Em Alagoas, um decreto que instituiu os Arranjos Produtivos Locais (APLs) prevê isenção total de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) na compra de ativos fixos, crédito fiscal presumido de 50% do ICMS na saída dos produtos e venda de terreno a preço simbólico para quem quiser fincar uma fábrica na região.

Com esses benefícios, o segmento de plásticos recebeu neste ano consultas de cerca de 20 empresas interessadas em aderir ao programa, segundo o diretor de Oportunidades de Investimento da Secretaria de Indústria e Comércio de Alagoas, Nuno Abreu. Ele acredita que pelo menos 20% dos projetos serão concretizados. Os APLs contam com a participação da petroquímica Braskem, que tem unidade no Estado e prometeu empenho na captação de empresas para a região, dando prioridade às indústrias locais no fornecimento de matéria-prima com preços competitivos. O projeto envolve todas as empresas do setor, num total de 33 indústrias, responsáveis por 3 mil empregos diretos e uma produção pequena, de 2,3 mil toneladas por mês. “Com a Braskem aqui, temos a faca e o queijo na mão para estimular o desenvolvimento dessa indústria. Por que não aproveitar?, diz Abreu.



Os benefícios fiscais têm sido importantes para alavancar a indústria em Goiás. No início dos anos 90, o Estado era mero comprador de materiais plásticos. Hoje tem 130 fábricas produzindo 7 mil toneladas mensais de todos os tipos de segmentos, com crescimento acentuado no ramo de sopros, voltado para produção de frascos para cosméticos, produtos de limpeza e alimentos. Quatro companhias estão em processo de instalação e dez manifestaram a intenção de ir para a região, onde é permitido postergar 50% do pagamento de ICMS. “Temos que trabalhar muito ainda para nos transformarmos em um pólo forte. Brinco sempre que precisamos fazer de Goiás uma Santa Catarina, afirma Jorge Luiz Biasuz Meister, presidente do Sindicato da Indústria de Material Plástico do Estado de Goiás (Simplago), referindo-se ao sucesso da indústria catarinense, que em três décadas virou potência no setor.

Mas se o histórico da indústria do plástico nos Estados acima do Sudeste do Brasil traz à tona a polêmica guerra fiscal, representantes do setor, como Cachum, se apressam em advertir que, neste caso, é uma espécie de guerra necessária. “Todos nós vestimos a mesma camisa chamada Brasil. Não podemos ter a visão de que tudo é para São Paulo e o resto que se dane. Temos que acabar com a guerra fiscal, mas não acho correto não criarmos condições para o desenvolvimento no resto do país. Se não levamos o crescimento às regiões mais pobres, como é que vai ficar?”

O forte peso dos incentivos na ramificação da indústria do plástico para novas regiões do país é inegável, mas não é considerado o mais importante. O setor envolve uma infinidade de produtos e todos dependem do crescimento da economia em geral. “A indústria do plástico é democrática, atende a várias cadeias industriais, e reflete a expansão brasileira. O que está se descentralizando é a indústria nacional em geral, afirma João Luiz Zuñeda, diretor da MaxiQuim.

Tanto que no ano passado, com a economia nacional retraída, a indústria do plástico encolheu 3,71%. Neste ano, a expectativa é de um crescimento de 6% a 7%, segundo Cachum. No segmento de embalagens flexíveis, utilizadas principalmente pela indústria alimentícia, responsável por 40% de toda a produção de plástico, o efeito da revitalização econômica no país é bem maior. “Se o Brasil crescer 4% ao ano, a indústria avança de 10% a 12%, segundo o vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Plásticas Flexíveis (Abief), Rogério Mani.

Em pólos como o de Goiás, a expansão do agribusiness nos últimos anos, sustentada principalmente pelas exportações, atraiu muitas indústrias alimentícias para a região. Além disso, a proximidade com os grandes centros consumidores - São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte - coloca o Estado em situação privilegiada dentro da estratégia de companhias que querem abrir novas unidades. O objetivo agora é estimular as vendas externas, atualmente restritas às chamadas exportações solidárias - a embalagem chega ao exterior na carona de outro produto, principalmente o frango. A expectativa, segundo Meister, é que, com a concretização da ligação da Ferrovia Norte-Sul entre Anápolis e o porto de Itaqui, no Maranhão, o canal para o mercado internacional complete a lista de motivos para que as empresas decidam se instalar no estado.

Exportações são o calcanhar-deaquiles em praticamente todos os pólos do plástico no país. Mesmo em São Paulo - com 3.858 empresas espalhadas por vários pontos do Estado e uma concentração mais expressiva na região do ABC, por causa das montadoras, a participação do mercado externo nas vendas é pequena, segundo o presidente do sindicato paulista do setor. A entidade não possui uma estimativa dos embarques. No fim do ano passado a indústria e a Agência de Promoção de Exportação (Apex) criaram o programa ExportPlastic/Apex, que vai injetar R$5,2 milhões para promover as vendas ao exterior, na tentativa de reverter o déficit comercial, hoje em cerca de US$ 189,1 milhões.

Para conseguirmos a adesão de 85 empresas ao programa foi necessário muito suor e lágrimas. O setor não tem uma cultura exportadora, afirma Cachum. Em Santa Catarina, que tem participação de 13,1% na produção nacional, a exportação não chega a 3%, segundo Jayme Antônio Zanatta, presidente do Sindicato da Indústria de Material Plástico do Sul Catarinense (Sinplasc), região que divide com municípios do entorno de Joinville as cerca de 200 empresas do setor. A produção é estimada em aproximadamente 527 mil toneladas anuais, com destaque para o segmento de copos descartáveis, em que o Estado responde por 80% do mercado nacional.

Sem uma margem firme de crescimento no exterior e, como São Paulo, sem incentivos, os catarinenses contam com a pujança e a tradição de sua indústria para atrair novos investimentos. “Nos diferenciamos de outros pólos em nível tecnológico e de conhecimento, já que atuamos há mais tempo, e é isso que tem nos mantido no domínio do segmento de descartáveis, afirma Walter João Nuemberg, presidente do Sindicato dos Descartáveis de Santa Catarina (Sindesc), representante das empresas da região de Criciúma.

O que os Estados do Nordeste, Norte e Centro-Sul estão começando a fazer, Santa Catarina experimentou há cerca de 30 anos, quando o setor começou a se desenhar na cabeça visionária de dois empresários locais, hoje proprietários do maior grupo empresarial de transformação de materiais plásticos no Estado, o Zanatta.

Nos anos 70, a economia do Sul catarinense estava voltada principalmente para a extração de carvão e a dependência de um único segmento preocupava a comunidade. Clubes como Rotary e Lyons desafiaram então os comerciantes locais a descobrir outros tipos de negócios. Jayme e seu tio Jorge Zanatta ficaram com essa idéia na cabeça. “A coincidência foi que, logo depois de termos ouvido uma palestra que falava dessa necessidade de explorar novos segmentos, chegamos em casa e nos chamou atenção que o arroz estava numa embalagem plástica transparente. Achamos que seria uma boa idéia produzir embalagens como aquela, que na época eram fornecidas apenas por São Paulo, conta Zanatta.

Hoje o grupo Zanatta, considerando as empresas de Jayme e as de Jorge, responde por 20% de toda a produção de embalagens flexíveis de Santa Catarina, empregando cerca de 1,2 mil funcionários, com atuação nos segmentos de copos descartáveis, tubos de PVC, telhas, caixas d’água e tintas.

Em outros Estados, o desenvolvimento da indústria do plástico se acentuou depois da instalação de pólos petroquímicos. No Rio Grande do Sul, a criação do Pólo Petroquímico de Triunfo, há 25 anos, deu início a um processo de expansão que faz com que hoje o Estado ostente o posto de quarto produtor do Brasil, conforme dados da MaxiQuim, com 315 mil toneladas fabricadas em 2003 e faturamento em torno de R$ 2,1 bilhões. Com a maioria das empresas concentradas na região da Grande Porto Alegre e cerca de 20 mil empregos diretos, o Estado tem uma produção variada, que vai de sacos plásticos e baldes industriais a tubos de PVC. No Rio de Janeiro, o início das operações Rio Polímeros no ano que vem tem tudo para alavancar a produção de materiais plásticos, hoje em torno de 139 mil toneladas por ano. O governo estadual também concede incentivos - isenção de ICMS para empresas que se instalam na Baixada Fluminense. (Fonte: Valor Setorial)