Barril do petróleo já não assusta petroquímicas
21/11/2006

Uma das causas do desempenho fraco do setor petroquímico do Grande ABC neste ano, a cotação internacional do petróleo não deve mais voltar aos patamares do passado. Para executivos e especialistas, depois da disparada do seu preço no início deste ano, a baixa na cotação no segundo semestre deve ser seguida por um movimento de estabilização.

O preço do barril atingiu recorde no início deste ano. Foi a US$ 74,5 na média de julho, com pico de US$ 78 durante esse mês e em outubro último recuou para US$ 57,9. A matéria-prima tem forte correlação com o preço da nafta (derivado que é base do setor) – que acompanhou essa evolução e também disparou, chegando à máxima de US$ 658 a tonelada em agosto. A alta do insumo ajudou a reduzir a margem de lucro das centrais petroquímicas, como a PQU (Petroquímica União), e a das fabricantes de resinas termoplásticas (material que se destina à produção de embalagens e peças de plástico), como a Polietilenos União e a Suzano Petroquímica.

Nos últimos meses, um movimento de baixa na cotação contribuiu para recompor em parte os custos das companhias do ramo. Um exemplo foi a PQU, que alcançou lucro líquido de R$ 83 milhões nos primeiros nove meses. O resultado foi 2,5% menor em relação aos R$ 85 milhões do mesmo período de 2005, mas a empresa projeta ganhos maiores para 2006 todo.

No entanto, especialistas e fontes do setor não se iludem. O petróleo em níveis como os de 2001, quando o barril estava cotado em média a US$ 28, não está nas projeções para 2007.
Para o professor de economia da Unicamp e da Facamp (Faculdades de Campinas), Celio Hirutaka, no curto prazo, há ainda uma série de fatores geopolíticos (a guerra no Iraque e a queda-de-braço do Irã na questão nuclear, por exemplo) e a pressão dos países do Opep (Organização dos Países Produtores de Petróleo) que farão o preço ficar elevado. “Não acho que deve voltar a US$ 50 o barril”, avalia.

O diretor comercial da Petroquímica União, Marcelo Bianchi tem avaliação semelhante. “Estamos trabalhando com um preço médio do petróleo para 2007 muito próximo dos níveis atuais, em US$ 60”, afirma. O lado bom, segundo Bianchi, é que não deverá haver a mesma oscilação de preços, que dificultou o planejamento das empresas em 2006.

O cenário mais favorável para a PQU, que é uma companhia da primeira geração petroquímica (fabrica o eteno, item básico, que serve de insumo para a produção de resinas termoplásticas), deve refletir positivamente para outros elos dessa cadeia produtiva, desde que a economia nacional também colabore.

Reajustes – Neste ano, em função da disparada da matéria-prima, as companhias do setor reajustaram seus preços sucessivas vezes ao longo do ano, para tentar recompor seus custos. Desde agosto, houve três altas seguidas da ordem de 10%, cada uma, nos preços das resinas.

Mas como a demanda dos produtores de embalagens se mostrava desaquecida, as petroquímicas perderam rentabilidade e vendas. A Suzano Petroquímica, por exemplo, computa prejuízo de R$ 13 milhões nos nove meses deste ano. Dessa forma, além do cenário externo mais favorável, as empresas do setor torcem para que o país cresça mais.

Disponibilidade de gás natural e nafta preocupa o setor

Se os preços internacionais do petróleo deram uma aliviada a partir do segundo semestre, uma questão ainda preocupa os executivos do setor petroquímico: as incertezas em relação ao abastecimento de nafta e de gás natural por parte da Petrobras para novos projetos de expansão a partir de 2010.

O Brasil já é importador de nafta. Adquire 30% do consumo nacional. No entanto, para a PQU (Petroquímica União), de Santo André, a importação ainda é difícil (ao contrário do que ocorre com as outras duas centrais petroquímicas, a Copesul, do Rio Grande do Sul; e a Braskem, da Bahia), já que a companhia não fica no Litoral e também não tem (pelo menos por enquanto) infra-estrutura de logística para trazer o insumo de forma viável economicamente do Porto.

Para amenizar o problema, a petroquímica do Grande ABC inovou em seu projeto atual de ampliação: utiliza gás residual de refinaria como insumo. Mas a definição do abastecimento é importante para a segunda fase de expansão, prevista para 2010. A Unipar, controladora da PQU, negocia com a Petrobras o fornecimento de insumos para a nova etapa.

O gargalo no abastecimento foi um dos fatores que levou a Suzano Petroquímica a adiar por alguns meses a ampliação de sua unidade em Duque de Caxias (RJ). E o co-presidente da empresa, João Nogueira Batista, levanta dúvidas em relação a novos projetos. “Não há matéria-prima disponível para investimentos muito além dos já conhecidos”, disse. (Fonte: Diário do Grande ABC)