Consumo de resina sobe 12% e setor irá investir US$ 4 bi
10/11/2006

Depois de amargar uma estagnação em 2005, a indústria petroquímica comemora um crescimento de 11,9% no consumo de resinas termoplásticas entre janeiro e setembro de 2006. No mesmo período, o volume de vendas subiu 11,5% , segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).

Garcia, presidente da Unipar, controladora da PQU: negociação com Petrobras para nova expansão do pólo Animadas com os resultados, e acreditando que a economia brasileira crescerá mais de 4% ao ano nos próximos anos, como deseja o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva, as maiores empresas nacionais do setor ratificam e ampliam seus programas de investimentos para até 2010 e que já superam US$ 4 bilhões.

O número acima não leva em conta os principais projetos da Petrobras, incluindo o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), previsto para operar a partir de 2012 e que, sozinho, somará investimentos da ordem de US$ 8,4 bilhões. Não considera também os projetos das empresas estrangeiras no país, como a construção de uma nova fábrica de PET (resina para garrafas plásticas) pela italiana Mossi & Ghisolfi (M&G) em Pernambuco. A capacidade instalada da indústria de resinas no Brasil é hoje de 5,92 milhões de toneladas, segundo dados da Abiquim.

Nem tudo são flores. Os recentes aumentos dos preços das resinas, decorrentes da alta do preço da nafta petroquímica, chegaram quando a curva de alta do preço internacional do petróleo entrava em declínio. Resultado: a indústria de transformação de plásticos, que é o cliente, se retraiu. Por isso, o aumento da margem, que deve refletir-se nos balanços do quarto trimestre, pode vir com a retração das vendas no período.

"O mercado neste momento está passando por dificuldades devido a um aumento de 22% na matéria-prima", afirma José Roberto Lapetina, presidente da Finoplastic Indústria de Embalagens, grande consumidora de polietileno de alta densidade. Segundo ele, o mercado na sua área cresce, no máximo, 5% em parte graças ao impulso dado pelo processo eleitoral.
Ricardo Jacob, presidente da Plásticos Mueller, disse que a produção de peças para o setor automobilístico está realmente crescendo na faixa de 10%, mas não está otimista quanto ao futuro, seja pelo preço da matéria-prima, seja pela taxa de câmbio, que facilita a concorrência estrangeira, entre outros fatores. Na Plásticos Majestic, outra grande fabricante de embalagens, também prevalece o desânimo. "O crescimento do mercado está sendo vegetativo", resumiu Maria Cristina de Paula, em e-mail, para o Valor.

Apesar das oscilações de humor dos transformadores, a indústria de resinas termoplásticas sustenta seus planos em uma evidência histórica e em uma realidade concreta. A evidência mostra que o consumo de resinas cresce de duas e meia a três vezes a taxa anual de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Se o PIB crescer a 4% nos próximos anos, é de se esperar uma sustentação de 10% ao ano no aumento do consumo de resinas.
Ainda mais porque a realidade mostra que o consumo de plásticos no Brasil é muito baixo, em torno de 25 quilos por habitante/ano, contra cerca de 110 quilos em países como a Coréia do Sul e Estados Unidos, segundo relata José Ricardo Roriz Coelho, co-presidente da Suzano Petroquímica.

Diante desta perspectiva, a Unipar, principal acionista da Petroquímica União (PQU), planeja um "upgrade" no seu projeto de ampliação da central-petroquímica paulista. Com investimentos em curso de R$ 1,6 bilhão, sendo o principal objetivo aumentar a capacidade da PQU de 490 mil para 700 mil toneladas/ano de eteno a partir de 2008, ela pretende atrair parceiros para um novo investimento de US$ 2 bilhões de 2007 a 2010, tendo como centro a já anunciada ampliação da PQU para 1,2 milhão de toneladas.

Para Roberto Garcia, presidente da Unipar, o pólo de São Paulo, em torno da PQU, é o que oferece a melhor estrutura para uma ampliação sem sobressaltos no prazo de três a quatro anos. Garcia entende que, com a crescente migração da indústria automobilística para outras regiões do país, o próprio ABC paulista está carente de um projeto desse porte. O executivo calcula que apenas a ampliação da PQU irá consumir cerca da metade dos investimentos projetados, devendo o restante vir com a produção de resinas e de produtos de terceira geração.

Como o suprimento de matéria-prima (nafta, gás ou correntes de refinarias) é condição básica para que o projeto decole, Garcia disse que a Unipar vai intensificar as negociações com a Petrobras para fechar a equação até março de 2007. "Dependendo do perfil da matéria-prima, a cara do projeto será uma ou outra." Segundo o executivo, a Unipar está trabalhando até em alternativas logísticas para importar parte da matéria-prima. "As conversações com a Transpetro estão em andamento", disse.

Embora não deixe dúvidas quanto à prioridade que dá para a expansão do pólo em torno da PQU, Garcia não descarta também o apoio da Unipar à expansão da Rio Polímeros (Riopol), unidade integrada de eteno e polietilenos, a partir do gás natural, inaugurada no ano passado, com investimento de US$ 1,2 bilhão (parceria Unipar, Suzano, Petrobras e BNDES). A produção mensal de 45 mil toneladas da Riopol já foi praticamente absorvida pelo mercado e se estuda disponibilidade de matéria-prima (gás) para aumentar essa capacidade em cerca de 160 mil/ano (de 540 mil para 700 mil toneladas/ano).

A estimativa é de que com mais cerca de US$ 100 milhões a expansão poderá ser feita, dada a infra-estrutura já existente. Roriz Coelho, co-presidente da Suzano, também admite tocar o empreendimento, mas a Suzano está mais focada em projetos de eliminação de gargalos produtivos, além da construção de uma nova unidade de polipropileno no Paraná, esta com investimento de aproximadamente US$ 240 milhões (cerca de 250 mil toneladas/ano).

Embora o crescimento do consumo de resinas este ano seja animador, Roriz Coelho lembra que a média 2005/2006 não passa da metade. Mais cauteloso do que Garcia, o executivo da Suzano disse que, primeiro, é preciso criar o ambiente favorável aos investimentos, reduzindo a carga tributária e o custo de capital. Ele lembra também que a rentabilidade do setor andou baixa até o terceiro trimestre deste ano.

Mas Roriz Coelho contrapõe às suas ponderações o baixo consumo per capita de resinas no país para justificar os projetos da Suzano. Além da obra do Paraná, a Suzano fará ampliações em São Paulo e no Rio, aumentando sua produção de polipropileno de 600 mil para 900 mil toneladas. Na Bahia, um misto de ampliação e atualização tecnológica vai consumir US$ 80 milhões para aumentar a capacidade de 125 mil para 200 mil toneladas/ano.

A Braskem, do grupo Odebrecht, já anunciou a intenção de investir US$ 3 bilhões, sozinha e em parcerias, para dobrar sua capacidade de produção de 2,3 milhões para 4,7 milhões de toneladas/ano. O vice-presidente de relações institucionais da empresa, Alexandrino Alencar, disse que mais da metade desses recursos deverá ir para os projetos de polipropileno e do complexo de olefinas de Jose, na Venezuela, voltados para o mercado dos Estados Unidos.

No Brasil, além da unidade de 400 mil toneladas de polipropileno que está sendo construída em parceria com a Petrobras em Paulínia (para 2008), a Braskem projeta várias eliminações de gargalos, incluindo uma pequena ampliação (150 mil toneladas) na fábrica de eteno de Camaçari (BA). Mas Alencar admite que, mantido um crescimento em torno de 10% deste ano das resinas mais consumidas, "vai ser preciso capacidade adicional" em futuro próximo.

E mesmo o grupo Ipiranga, cuja possibilidade de negociação do controle volta e meia circula no mercado, está, rumores à parte, colocando em prática seu plano estratégico para até 2016 que tem como foco principal tornar-se "player regional" sem perder de vista o além-mar, segundo disse ao Valor Alfredo Lisboa Ribeiro Tellechea, diretor-superintendente da Ipiranga Petroquímica.

Para Tellechea, o aumento do consumo faz com que as melhores oportunidades estejam no mercado interno. A Ipiranga está negociando matéria-prima para ampliar sua produção de polipropileno em Triunfo (RS) de 150 mil toneladas/ano hoje para 180 mil. E já avalia construir uma nova unidade do mesmo porte, com investimento de US$ 220 milhões, além de vários investimentos menores para atualizar o perfil de produção até 2008. "Estamos prontos para um novo ciclo de investimentos de acordo com nossa capacidade", disse Tellechea. (Fonte: Valor Econômico)