Indústrias temem comprometer seus novos investimentos
26/10/2006

Nos próximos dez anos, siderúrgicas, petroquímicas, mineradoras, fabricantes de vidros, cloro-soda e gases industriais planejam aumentar a sua produção para atender à demanda interna e, em muitos casos, à externa. Investimentos serão muito superiores a US$ 30 bilhões nesse período. A tendência de alta nas contas de luz, no entanto, poderá tornar-se um obstáculo a mais - ao lado da elevada carga tributária, logística deficiente e câmbio desvalorizado - para que alguns desses projetos saiam das pranchetas. Um número cada vez maior de setores industriais está preocupado com os custos da energia elétrica.

Nas décadas de 1960 e 1970, quando o país acelerou a sua industrialização, um parque industrial eletrointensivo foi montado. Petroquímicas, siderúrgicas, por exemplo, avançaram, fabricantes de alumínio aumentaram sua produção. Em muitos casos, alguns desses setores estão voltando a planejar fortes investimentos. "Energia mais cara significará uma queda nos investimentos produtivos e representará que o custo de investir no Brasil ficará mais alto", afirma o economista da FGV Fernando Garcia.

A lógica de produção hoje é global. As multinacionais colocam os dados em suas planilhas e analisam em que país faz sentido implementar uma nova fábrica ou expandir uma já existente. "China e Índia poderão atrair mais investimentos que seriam direcionados ao Brasil", diz Garcia.

De outro lado, empresas brasileiras estão buscando cada vez mais oportunidades no exterior para ampliar sua produção diante de um câmbio valorizado e custos crescentes. "Como os custos de energia representam mais de 10% das despesas em muitos setores da indústria, isso pode inviabilizar muitos projetos", diz o vice-presidente da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia (Abrace), Eduardo Spalding.

Contas de energia mais caras acrescentam outro fator de pressão. Além disso, a insegurança quanto ao abastecimento é um fato. A Albras, produtora de alumínio, planeja investir US$ 1 bilhão na ampliação de 30% de sua fábrica na região Norte, mas a aplicação dos recursos depende da garantia de que haverá energia para sustentá-lo. Sem essa garantia e sem novos projetos de geração na região, a Vale do Rio Doce, controladora da empresa, investe mais em bauxita e alumina, que consomem menos energia. "Grandes novos projetos estão andando de lado nesse cenário", diz Spalding. No caso do alumínio, os custos com energia chegam perto de 40%.

Há três anos, de doze fábricas da Gerdau no mundo, nove tinham seus custos mais competitivos de energia no Brasil. Hoje, a realidade mudou: apenas duas estavam no Brasil. Outros setores também estão preocupados. Petroquímicas não podem expandir seu parque no Nordeste a preços mais competitivos, usando gás natural, em razão da falta de expansão da malha de dutos e da falta do combustível.

"A alta de energia poderá prejudicar o desenvolvimento regional, atrasando o crescimento do Nordeste e Norte, por exemplo", diz Garcia, da FGV. Se houvesse energia disponível a preços competitivos, as fabricantes de alumínio poderiam investir mais. "Em dez anos seria possível multiplicar o PIB industrial dessas regiões, mas para que isso ocorra os novos projetos hidrelétricos na região têm de ter preços competitivos em relação aos do mercado internacional", afirma o economista.

O forte crescimento do setor imobiliário está aumentando as encomendas dos fabricantes de vidro. A importação de vidros planos já está em cerca de 20% do total do consumo. Mantido o atual cenário, novos investimentos em produção nos próximos anos poderão ser deslanchados, mas o preço da energia e a insegurança no abastecimento são desestímulos. Hoje algumas vidreiras, preocupadas com a instabilidade na Bolívia, fazem cálculos da implantação de fornos bicombustíveis em suas plantas.

"Para transformá-los em bicombustíveis, seriam necessários investimentos de US$ 1,5 milhão, o que se transforma em um custo extra para cada empresa, ao mesmo tempo as tarifas industriais crescem brutalmente", diz o superintendente da Associação Brasileira da Indústria do Vidro (Abividro), Lucien Belmonte. "Há vidreiras que estão olhando a Venezuela, que tem energia barata, como opção", afirma Garcia, da Fundação Getúlio Vargas.

Outros projetos de investimento também podem sofrer com a dificuldade de recontratação de energia elétrica. Quando o mercado livre se expandiu, algumas empresas não buscaram contratos de longo prazo, ou seja, acertaram seu abastecimento até 2007, 2008 ou 2009. Como o consumidor livre não pode participar dos leilões de energia nova, criaram-se dificuldades para ele obter mais energia. "Quem tem de recontratar volumes médios de 80 MW a 100 MW está tendo grandes dificuldades", diz o sócio da Comerc, Cristopher Vlavianos. "Muitos querem investir no país, nas não conseguem contratar essa energia", afirma. Segundo ele, petroquímicas, empresas do setor de gases industriais e do setor de mineração estariam entre as maiores prejudicadas.

Os preços crescentes soman-se a outro fantasma: a escassez de energia. No Nordeste, por exemplo, alguns projetos de expansão da capacidade produtiva estão à espera de mais energia. Com o potencial hidrelétrico do rio São Francisco no limite, a região teria como alternativas o gás e o maior intercâmbio de energia com outras regiões do país.

O gás ainda é uma incógnita - mesmo que hoje existisse gás, faltaria a malha de dutos interligando as regiões Sudeste e Nordeste. E novos projetos de usinas hidrelétricas que poderiam aumentar o intercâmbio energético ainda estão nas planilhas.

A situação, no entanto, pode mudar a partir do segundo semestre de 2008, quando a Petrobras injetará no mercado maior produção de gás da Bacia do Espírito Santo e duas plantas de Gás Natural Liquefeito (GNL) poderão estar disponíveis. As iniciativas em estudo agregarão 40 milhões de metros cúbicos diários ao sistema e reduzirão a dependência com a Bolívia, hoje responsável pelo envio de 30 milhões de metros cúbicos diários. (Fonte: Valor Econômico)