Indústria repassa novos reajustes de insumos
05/10/2006

Após absorver continuadas altas de preços de insumos como resinas termoplásticas e aço, os fabricantes de bens finais e intermediários afirmam que agora vão repassar os aumentos para os consumidores finais. Segundo eles, essa tendência fará com que as vendas para o final do ano fechem abaixo do previsto inicialmente, uma vez que a demanda interna poderá refluir ligeiramente diante dos reajustes.


“Registraremos vendas, em setembro, entre 10% e 12% abaixo de nossa expectativa”, alerta Luiz Antonio Simões, diretor-geral da fabricante de filmes flexíveis Europack, associando esse resultado ao reajuste de preços promovido pela empresa. A Europack foi uma das milhares de transformadoras plásticas afetadas com o reajuste de entre 5% e 10% nos preços das resinas anunciado pelas petroquímicas Braskem e Ipiranga Petroquímica na última semana. Análise da Associação Brasileira das Indústrias de Embalagens Plásticas Flexíveis (Abief) indica que o setor ainda tenta repassar os dois primeiros reajustes nas resinas termoplásticas, anunciados para os meses de agosto e setembro. Agora, o setor prevê nova queda-de-braço com os clientes para repassar o terceiro aumento.


Nos últimos três meses, os fabricantes de resinas anunciaram reajustes que já superam os 30%. “Precisamos contar com o bom senso das petroquímicas. Ainda estamos tentando repassar para os clientes os dois primeiros reajustes, que ultrapassam os 25%”, alerta o presidente da Abief, Rogerio Mani. A expectativa da entidade é de que o setor feche o ano em estagnação na comparação com o ano passado, em decorrência de uma retração prevista para o segundo semestre.


A Europack acredita que as vendas no segundo semestre apresentarão o mesmo ritmo de janeiro a junho, apesar de o período ser, sazonalmente, mais favorável às vendas. “Ainda estamos tentando repassar o primeiro reajuste para, em outubro, negociar o segundo”, diz Simões. Com quase 75% de seus custos provenientes da matéria-prima, a empresa tem flexibilizado estoques para se adequar aos pedidos dos clientes e aos reajustes. “O setor trabalha com estoques de cerca de 30 dias, mas acredito que, hoje, a maioria das empresas mantenha estoques para apenas 15 dias”, diz.


A fabricante de móveis plásticos Marfinite também não vê condições de absorver um novo reajuste. “Não acredito que ele [aumento] venha a se confirmar, mas, se acontecer, se tornará mais atrativo importar resinas dos Estados Unidos”, alerta o diretor comercial da empresa, Vital Raiola. Ele destaca que, com o novo reajuste, o preço da resina comprada na América do Norte ficará cerca de 30% mais barato para ele do que o produto nacional. “Até o momento conseguimos repassar reajustes de apenas 6%, embora o preço da resina já tenha crescido 20%”, ressalta, ainda sem considerar o aumento anunciado na semana passada.


O presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), Merheg Cachum, também analisa o reajuste no preço das resinas como uma intenção de aumento, e não como algo consumado — o reajuste passou a valer a partir de ontem. Ele destaca que, com o novo aumento, o caminho de empresas que demandam grandes volumes de resina pode ser a importação. “Outro agravante é a provável expansão da importação de produtos plásticos acabados”, afirma o executivo.


A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) alega que as fabricantes de produtos elétricos e eletrônicos também têm encontrado dificuldades de lidar com o aumento dos custos já que o setor observa o aumento da concorrência em diversos segmentos e registra retração de preço em alguns itens.


Aço

Os últimos reajustes no preço do aço também impactam as empresas que trabalham com o metal. “Em setembro tivemos uma queda de 30% nas vendas em relação a agosto”, afirma Fernando Lima, supervisor de vendas da Tyco Dinaço, distribuidora de tubos, perfis, telhas e peças especiais. A empresa utiliza aço da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que teve reajuste de 5% no último mês. “Repassamos todos os custos aos clientes”, diz Lima. Segundo ele, a demanda está baixa e há muita oferta no mercado. “O preço já afastou os pedidos do aço automotivo”, diz. As vendas da empresa, segundo o supervisor, deverão ficar 20% abaixo das registradas em 2005.


Na distribuidora Manchester Belgo, também fabricante de pregos, cercas, telas e arames, a redução nos pedidos chega a entre 10% e 15% toda vez que o preço precisa ser reajustado, diz Luis Carlos Fernandes, gerente comercial da empresa. “As vendas caem porque o preço assusta o consumidor”, explica. Segundo ele, não houve e nem há como estocar o insumo, pois a usina alega estar sem aço.


Cadeia produtiva

O reajuste dos insumos não é o único fator que preocupa a indústria. A demanda de todo o setor para o período dá sinais de estar abaixo do previsto, como reflexo dos números modestos da economia nacional. “Ninguém está esperando muita coisa neste final de ano. Prova disso é que os lojistas não estão elevando seus estoques”, ressalta o presidente da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel), Domingos Rigoni. O setor moveleiro encolheu 9% entre janeiro e agosto deste ano e projeta fechar 2006 em queda de 8%.


O presidente da Associação das Indústrias de Móveis do Estado do Rio Grande do Sul (Movergs), Luiz Attilio Troes, explica que, apesar do aquecimento das vendas no último trimestre, a crise no setor moveleiro vai perdurar. “Este é um ano para ser esquecido. As vendas de fim de ano minimizam o problema, mas não o solucionam”, ressalta.


Os fabricantes de embalagens também estão com previsões menos otimistas para o fechamento deste ano. “Esperamos que haja uma retomada mais acentuada no segundo semestre, após crescermos apenas 0,5% no primeiro semestre”, diz a diretora executiva da Associação Brasileira de Embalagem (Abre), Luciana Pellegrino. Para o segundo semestre, a expectativa de expansão da entidade permanece abaixo de 3%.


A Klabin, líder no mercado de papelão ondulado do País, espera elevar as vendas do produto em 4% em relação ao ano passado. “Após uma forte queda em 2003, o setor teve alguns anos de recuperação e fechará 2006 com um consumo pouco acima do que tinha em 2002. Isso mostra quão pouco a economia tem crescido nos últimos anos”, afirma o diretor-geral Miguel Sampol Pou. Segundo a Associação Brasileira do Papelão Ondulado (ABPO), o setor encerrará o ano em alta de entre 1,5% e 2%, próxima da expansão de 1% registrada até agosto.


De acordo com previsões da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o último trimestre também será de retração no crescimento em relação ao decorrer do ano. “Nossa previsão atual é de que o mercado interno fique 7% acima do de 2005”, diz Rogelio Golfarb, presidente da entidade. Dados preliminares mostram que as vendas do mercado interno de janeiro a setembro ficaram 10,6% acima do registrado em igual período de 2005. O presidente da General Motors, Ray Young, já admitiu que o crescimento possa ficar abaixo dos 7%.


A fabricante de freios Boechat estima queda de 30% nas vendas do terceiro trimestre de 2006, na comparação com igual período do ano passado. A retração nas vendas tem impossibilitado a companhia de repassar os recentes reajustes de preço dos insumos siderúrgicos. “Não repassamos nada este ano e, definitivamente, não vamos repassar nada até o fim de 2006. O mercado não tem como absorver”, afirma Juliana Rocha Cordeiro, analista de marketing da Boechat.


A Metal Corte, especializada na produção de motores de baixa tensão, também reviu sua expectativa de expansão para 2006. “Esperávamos crescer 30% este ano, mas vamos ter incremento de apenas 13% ou 14%”, reclama o diretor presidente do grupo, Osvaldo Voges. Segundo ele, além do crescimento da importação de máquinas de linha branca já prontas, há a concorrência com a importação de peças. (Fonte: DCI)