Setor privado discute complexo petroquímico da Petrobras no Rio
21/09/2006

As empresas privadas do setor petroquímico brasileiro estão preocupadas com a "modelagem" de negócios do novo investimento da Petrobras na área petroquímica, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), a ser instalado em Itaboraí, no interior fluminense. A preocupação foi manifestada nesta terça-feira pelo co-presidente da Suzano Petroquímica, João Batista Nogueira, em palestra no Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP).





Na avaliação de Nogueira, o novo empreendimento, que exigirá investimentos de US$ 8,5 bilhões, conforme estimativas da Petrobras, poderá significar a reestatização do setor ou a "pulverização" em várias empresas de pequeno porte, como participação minoritária da Petrobras, como ocorria até 1999, antes do processo de privatização. Esse cenário dificultaria a sua competitividade internacional da petroquímica brasileira.





Para Michel Hartveld, diretor do IBP, o setor tem discutido muito os aspectos tecnológicos, especialmente o aproveitamento do óleo pesado da bacia de Campos, mas ainda não debateu os efeitos sobre as empresas da chamada segunda ou terceira geração do setor. Outro risco seria o ingresso de algum grupo internacional como parceiro da Petrobras, o que poderia afetar as empresas atuais, onde predomina o capital privado nacional. Os dois especialistas, porém, foram unânimes em considerar o projeto importante já que vai produzir matérias-primas básicas, que dará sustentação a um novo ciclo de expansão para as empresas de segunda e terceira gerações a médio e longo prazo. O Comperj só deverá entrar em operação em 2015.





Nogueira considera que a petroquímica brasileira está vivendo um "pesadelo" atingida por três movimentos simultâneos: a) o câmbio apreciado, que reduz a lucratividade das exportações; b) uma demanda interna muito fraca e c) a política de preços das matérias-primas (primeira geração) praticadas pela Petrobras. "A Petrobras tem o absoluto controle dos preços da matéria-prima, já que é o único grande fornecedor nacional, e tem repassado para nós (da segunda geração do setor) todo o aumento de preços nos últimos anos. Só que não estamos conseguindo repassar o aumento de custos devido à fraca demanda interna", reclamou.





O co-presidente da Suzano defende que a Petrobras reveja a sua política de fixação de preços das matérias-primas do setor. "É preciso que a empresa analise a competitividade do setor como um todo", observou. Isso não significa, segundo ele, a volta da política de concessão de subsídios, quando a estatal participava minoritariamente de várias empresas do setor. Nogueira citou o caso da própria Suzano que, se estivesse operando nos Estados Unidos, teria condições de negociar contratos com descontos em relação aos preços à vista (mercado spot). "Certamente teríamos descontos de 8% a 10%, mas aqui a Petrobras cobra o preço integral", reclamou. Além disso, ele considera "pouco transparente" os referenciais utilizados pela Petrobras para a fixação dos preços dos seus produtos.





O ex-diretor da Petrobras e consultor do setor, Paulo Bellotti, considera que as empresas brasileiras do setor ainda "são pequenas" frente aos grandes complexos mundiais e ele defende que a estatal brasileira "auxilie" as empresas nacionais a ter mais competitividade. Isso não significa, na sua opinião, a volta do modelo antigo de participação minoritária nas empresas do setor. Armando Guedes Coelho, diretor da Suzano, porém, considera que as empresas não precisam mais de auxílio da empresa, que já adquiriram porte para competir no mercado internacional. (Fonte: O Estado de S. Paulo)