Braskem mantém desempenho em ano difícil e vai às compras
03/03/2010

A virada de 2009 para 2010 gerou na Braskem, maior companhia petroquímica do país, um otimismo cauteloso. Os preços de resinas e insumos petroquímicos básicos retomaram a tendência de alta no quarto trimestre. Mas diversos fatores podem levar a uma nova queda das cotações. Entre eles, a restrição de crédito anunciada pelo governo chinês e a incerteza quanto à recuperação da demanda europeia.

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Ao contrário do que se vê normalmente, não houve redução sazonal da demanda no fim do ano. Assim, a produção de resinas pela Braskem cresceu 10% em 2009, atingindo 3,1 milhões de toneladas.

Em sua apresentação de resultados nesta quarta-feira, a companhia divulgou um EBITDA (indicador de receita operacional) de R$ 2,5 bilhões em 2009, praticamente igual ao obtido no ano anterior. É um desempenho satisfatório, se comparado ao das concorrentes americanas e europeias, mais prejudicadas pela crise econômica. No caso da Braskem, as vendas no mercado interno permaneceram estáveis de 2008 para 2009, mas, devido à queda nas exportações, houve queda de 18% na receita líquida. Mesmo nesse cenário, a margem operacional melhorou 2,8 pontos percentuais, superando os 16% – uma das mais altas da petroquímica global. O lucro líquido em 2009 foi de R$ 917 milhões.

A Braskem fechou o ano com R$ 3,14 bilhões em caixa, o suficiente para cobrir dois anos de amortização da sua dívida, cujo prazo médio é de 9,5 anos.

Em termos de estratégia, a companhia aproximou-se neste início de ano de sua meta de tornar-se uma das cinco maiores petroquímicas do mundo até 2020. Em um cenário ainda marcado pela crise, a Braskem aproveitou oportunidades para acelerar seu crescimento. Com a aquisição da Quattor, fez o movimento decisivo para a criação de uma empresa com porte global no Brasil. Ela ocupa atualmente a oitava posição na lista das maiores petroquímicas do mundo.

Já a compra da americana Sunoco – que faz da Braskem a terceira maior produtora mundial de polipropileno –, é o primeiro passo da estratégia de operar em mercados externos. Até então, havia apenas exportações e escritórios comerciais.

Paralelamente, a Braskem acaba de se engajar, no México, no Projeto Etileno 21. Em associação com o Grupo Idesa, a companhia brasileira derrotou 28 concorrentes na disputa por um novo projeto para a produção de 1 milhão de toneladas por ano de eteno e polietileno. As operações estão previstas para começar em 2015 e, até lá, consumirão investimentos estimados em US$ 2,5 bilhões.

Os próximos movimentos estudados pela Braskem são a análise da participação no pólo têxtil de Suape, a avaliação de novas aquisições na América do Norte e o início das operações na Venezuela. Sua primeira meta de internacionalização é consolidar a liderança nas Américas.

Depois de falar sobre os planos de crescimento no mercado americano, Bernardo Gradin, o presidente da companhia, ouviu uma provocação. Por que a Braskem está querendo entrar nos Estados Unidos justamente quando concorrentes de peso, como a Dow Química, desistem da petroquímica naquele país? A soma de desinvestimento no setor e recessão indica que é um bom momento para comprar empresas americanas. Mas este pode ser o fim da festa das margens de lucro no negócio de resinas.

Gradin diz que, primeiro, não entra em movimentos de manada. E, segundo, vê na recuperação desse mercado no final do ano e na expectativa de reaquecimento da economia americana indícios de que a trajetória de preços não será necessariamente descendente.

Mesmo assim, reconhece que o negócio de resinas nos Estados Unidos, no futuro, terá menores margens. Por isso, algumas corporações multissetoriais estão saindo do setor. Em seu lugar, entram fundos de private equity com sua típica visão de médio prazo. Moral da história? “O mercado americano está mudando de mãos”, diz Gradin. “A Braskem acredita que, nesse cenário, pode garimpar oportunidades.”