Petróleo: Estimativas iniciais das reservas de Tupi foram conservadoras
18/02/2010

O campo Tupi, que mesmo em fase de testes já mudou o mapa da exploração no Brasil e colocou o país no centro das atenções mundiais, ainda poderá surpreender com uma reserva maior que as estimativas iniciais da Petrobras, que mencionavam volumes de 5 a 8 bilhões de barris de petróleo e gás. Pelo menos é isso que indica Paulo Buschinelli, engenheiro de petróleo que é o gerente de operações do TLD de Tupi na Petrobras.

"Hoje 5 bilhões de barris pode se chamar de estimativa conservadora. Eu acredito que estamos aprendendo muito e está bem firme a proposta. Falar em 5 a 8 bilhões é uma coisa possível, não é estimativa, não é sonho não. É realidade. Mas a realidade final vamos determinar ainda. O reservatório do qual se falou um ano atrás é uma coisa e hoje é outra. A gente aprende. Hoje, temos mais poços, mais testes, produzimos petróleo nesse poço e pegamos mais informações", disse Buschinelli.

O executivo concedeu entrevista na quarta-feira na plataforma Cidade São Vicente, onde está sendo realizado um teste de longa duração em Tupi. Tudo até o momento indica que o campo é mesmo gigantesco. Tanto que a Agência Nacional do Petróleo (ANP) autorizou o aumento da produção, durante o teste, de 14 mil para os atuais 20 mil barris até o dia 31 de maio. O objetivo é que a Petrobras pudesse medir a pressão do reservatório por meio de outro poço, feito a uma distância de 20 quilômetros.

"Não é brincadeira não. O reservatório é grande mesmo A produção de óleo tem que ser suficiente para que haja uma queda da pressão lá embaixo (que pudesse ser medida no outro poço). Mas com 14 mil barris o volume de informações era pequeno", explicou.

Na quarta-feira o navio "Navion Clipper" fez o décimo primeiro carregamento de petróleo de Tupi, "aliviando" a plataforma Cidade São Vicente. Ela tem capacidade para armazenar até 450 mil barris de petróleo. O "Navion" recebeu 300 mil barris na quarta-feira e tomando-se esse volume como base e considerando-se ainda que foram feitos onze carregamentos, chega-se a um volume de produção de 3,3 milhões de barris de petróleo durante o teste. Ele começou no dia 1º de maio de 2009 e acaba em outubro. Em dezembro a Petrobras terá que declarar a comercialidade da área, informando a extensão do reservatório e dando um nome. Existem apostas de que Tupi poderá ser batizado de Lula.

A vida na plataforma é dura. Funcionários próprios e terceirizados de quatro nacionalidades enfrentam temperaturas de 60º C no convés, perto do "flare", que é uma chama gigante formada pelo gás que sai do poço e é queimado na atmosfera. As ondas atingem uma média de dois metros de altura. A Petrobras tem apenas três funcionários próprios entre os 70 embarcados. São todos, incluindo os estrangeiros, comandados pela curitibana Viviane Paulus, engenheira de processo com mestrado em petroquímica que se tornou a primeira mulher na Petrobras a ocupar o cargo de gerente de plataforma. Ela está há sete anos na companhia e antes de Tupi era gerente da plataforma P-18. O cargo exige curso de capitã de embarcação de até 300 mil toneladas.

Tupi produz 20 mil barris de petróleo e 800 mil metros cúbicos de gás por dia - parte usada na geração de energia e o resto queimado - em um teste de longa duração (TLD) que se encerra em outubro. Mas antes disso, em 31 de agosto, a plataforma Cidade São Vicente, afretada da empresa BW, dará lugar a uma unidade piloto.

A nova plataforma vai produzir 100 mil barris por dia conectada em quatro poços e atingirá a plena capacidade a partir de dezembro. A São Vicente ficará dois meses testando outro poço distante 20 quilômetros de Tupi e depois vai iniciar testes no reservatório chamado Tupi Nordeste, informou a gerente da Petrobras.

Com Tupi, a Galp Energia, que tem 10% da área, vai aumentar sua produção de petróleo e diminuir os gastos com importações. A empresa, ao contrário da outra sócia BG (25%), é dependente de importações e terá situação mais confortável a partir de Tupi, onde terá direito a 10% da produção. Atualmente, a Galp importa cerca de 260 mil barris por dia, o que atende a pouco mais de 85% do mercado português de combustíveis. Quando Tupi produzir 1 milhão de barris, por exemplo, a Galp receberá 100 mil barris por dia, o que é um terço das suas atuais importações.

O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, diz que além de dobrar as reservas do Brasil, hoje em 14,8 bilhões de barris, as descobertas no pré-sal, onde Tupi foi pioneiro, fortalecerão a economia brasileira, vai melhorar a percepção de risco do país, possibilitará a criação e o desenvolvimento de tecnologia de ponta, e vai consolidar a liderança do Brasil na exploração em alto mar. "Com a produção do pré-sal, o Brasil contará com mais recursos para saúde, educação, habitação, inovação e pesquisa tecnológica e infraestrutura, além da geração de emprego e renda", afirma Gabrielli.

Os campos da Petrobras na bacia de Santos, incluindo Tupi e Mexilhão, já são responsáveis pelo aumento do movimento de pousos e decolagens no aeroporto de Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro. A fase de testes em Tupi aumentou a quantidade de helicópteros fretados das empresas BHS, Senior e Omni, algumas das que atendem a Petrobras em Jacarepaguá. A BHS colocou à disposição da companhia helicópteros S-92 fabricados pela americana Sikorsky, que têm capacidade de transportar 18 passageiros com autonomia que permite completar os 600 quilômetros de ida e volta até Tupi sem reabastecer.